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Mulher-Maravilha # 31

Por JB Uchôa

Gods Save the Queen

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Muitos anos atrás, os deuses do Olimpo criaram as amazonas para serem suas mensageiras. Elas representariam, acima de tudo, a virtude, o amor e a comunhão com a natureza. Mulheres esplendorosas, perfeitas no corpo e na alma.

Um dia, a rainha amazona, Hipólita, rogou aos deuses que lhe dessem uma filha. Assim nasceu Diana, princesa de Themyscira, a única criança a crescer na Ilha Paraíso. Ela foi abençoada com a sabedoria de Atena, a beleza de Afrodite, a velocidade de Hermes... uma criança que se tornou o orgulho dos deuses e seria nomeada sua campeã no mundo dos homens. Seria ela a escolhida para guiar a humanidade a uma era de virtude, lealdade e amor.

Embaixada de Themyscira — Nova York

— Diana, — diz Sílvia, enquanto recebe a embaixadora na porta — você tem uma reunião.

— Hoje? Será que eu esqueci?

— Não, embaixadora, é de última hora.

Sobre os ombros da Mulher-Maravilha, Cassandra Sandsmark vê pela fresta da porta sua mãe, Helena, conversando com Ártemis e Phillipus. Diana abre a porta e saúda as irmãs com alegria e desconfiança. Qual motivo teria feito com que Ártemis e Phillipus saíssem da ilha por ordem de sua rainha?

— Princesa. — Phillipus abraça Diana e passa a mão delicadamente por seus cabelos negros — Cada vez que a vejo, estás mais bonita. — Diana sorri gentilmente em retribuição.

— Mas o que devo o prazer de duas honradas visitas? — Ártemis e Phillipus se olham, como se perguntassem uma à outra quem deveria começar a falar.

— Cassandra, pode nos dar licença? — o trio vira-se para a jovem heroína, no aguardo que saia do recinto.

— É tão secreto que eu não posso escutar?

— Precisamente. — responde Ártemis.

Existem duas coisas que Cassandra Sandsmark odeia. Uma é quando sua mãe a proíbe de usar seus poderes, coisa que nunca mais aconteceu. O que às vezes leva Cassandra a se perguntar se ela tem se tornado mais responsável ou se sua mãe tem andado cada vez mais absorvida no trabalho. A outra coisa que odeia é quando Ártemis fala com ela como se fosse uma criança. Cassandra tem quase dezesseis anos e tem certeza que sua cabeça de hoje já está plenamente formada para a idade adulta. A Garota-Maravilha percorre o longo hall que divide a ala da embaixada até a sede da fundação.

— Manhê. — diz a garota, se posicionando de frente à mesa da curadora da exposição.

— Sim... Cassandra??? — Helena pára de olhar o papel que acabara de imprimir com a fotografia de objetos antigos e olha para a filha — Você nunca vem aqui! Acha os livros tão chatos e enfadonhos. Está começando a se interessar pela mostra que vai ser inaugurada na semana que vem?

— Hã... — diz a garota, olhando para o chão — na verdade eu queria saber se a senhora sabe o que a Ártemis veio fazer aqui com a Phillipus.

Helena olha para a filha por alguns instantes, posicionando os óculos de meia-lua na ponta do nariz e observando-a por cima deles.

— Não, Cassandra, não sei. — Helena volta a olhar a tela do computador, passando imagens.

— Você sabe!

A senhora sabe. Educação, mocinha!

— Viu? A senhora sabe!

— Tem razão, eu sei.

— E então?

— Então o quê, Cassandra?

— Ora, mãe! O que é que elas vieram fazer aqui?

— Não posso falar, Cassandra.

— Por que não?

— Porque não, ora!

— Mas é a senhora mesma que vive dizendo que "porque não não é resposta"! Por quê?

— Eu sou mãe, Cassandra. Sua mãe.

— E o que isso tem a ver, mãe?

— Mãe pode tudo.

— E onde tem escrito isso?

— No manual das mães de jovens super-heroínas.

Cassandra fica olhando para a mãe, que continua imersa no trabalho.

— Saco! — balbucia ela, saindo da sala em pisadas largas e firmes.

Helena Sandsmark esboça um leve sorriso quando percebe que a menina saiu da sala, mas olha atentamente para a imagem em um vaso de um homem desnudo com cabeça de touro lutando com uma das górgonas. Abaixo da imagem, lê-se em grego "Kithirotauro contra Górgona".

— Será que Ferdinand é tão velho quantos as amazonas? — Helena aperta a tecla print e, com a folha em mãos, a guarda em uma pasta.

Diana, Phillipus e Ártemis estão em pé no centro da sala. A luz do entardecer passa suave pelas frestas da janela e iluminam parcialmente o ambiente. Subitamente, a princesa amazona se senta, enquanto Ártemis acende o abajur na mesa da embaixadora.

— Minha mãe deixou a ilha e só disse isso?

— Sim, princesa. — responde Phillipus, em tom severo.

— Que missão é essa que os deuses pediram para a rainha das amazonas fazer? Por que não solicitaram a mim?

— Talvez, Diana, — retruca Ártemis — os deuses tenham percebido que a campeã deles está envolvida demais no mundo dos homens.

— Isso não seria inconveniente, já que foi a mim que vieram solicitar auxilio quando decidiram se mostrar ao mundo como divindades reais. (*)

— Diana... — fala Phillipus, encarando a princesa de cima. A Mulher-Maravilha levanta-se e encara a capitã da guarda de Themyscira nos olhos — Hipólita foi bem clara quando partiu e disse que poderá demorar muito tempo para completar sua missão. Ao informar nossas irmãs, todas nós decidimos que você deverá ocupar o lugar de sua mãe.

Diana leva a mão à boca e suspira ao receber a notícia. Ela tem sido a Mulher-Maravilha por muito tempo e gosta disso. Ela acha que seu papel no mundo foi definido pelos deuses, e que ser a campeã das amazonas é sua missão.

— Eu... rainha?

— Sim, princesa. — Phillipus toca a mão nos ombros da princesa — Nós queremos que você seja nossa rainha!

Embaixada de Themyscira — sala de conferências

— Diana, — retruca Cassie — você é a Mulher-Maravilha!

— Eu nunca fui a Mulher-Maravilha, querida. A Mulher-Maravilha foi idéia da mídia, ela representa um ideal, um símbolo e continuará existindo. Ela não sou eu, eu apenas sou... Diana, filha de Hipólita, princesa das amazonas.

— Você não pode fazer isso!

— Cassandra, a decisão não é minha. Como princesa de Themyscira, meu dever é para com minhas irmãs. — o rosto de Diana está sereno, embora triste. Helena, Sílvia e Ferdinand olham para a Mulher-Maravilha com ar de espanto, enquanto Cassandra cerra os punhos com força, vertendo lágrimas.

— Não é justo! Não é mesmo! — a Garota-Maravilha sai em passos firmes, como fez em poucos instantes na sala de sua mãe.

— Cassie...

— Dê um tempo a ela, Diana. Cassandra entenderá que você possui outras obrigações.

— Eu sei, Helena. — os olhos azuis como o mar Egeu deixam derramar uma única lágrima, que logo é amparada por Ferdinand.

— Sentirei sua falta, minha rainha. — Ferdinand ajoelha-se perante Diana e beija suas mãos.

— Grande hera! Não, Ferdinand, não! Nosso relacionamento não vai mudar!

— E quem ficará na embaixada? — Sílvia faz a pergunta que todos queriam saber e tinham medo de perguntar.

— Ártemis. — Diana vira-se para a bela ruiva — Você pode desempenhar esse papel com maestria. Sílvia a ajudará no que for preciso.

— Sim, minha rainha. — Ártemis esboça um sorriso, com a cabeça baixa. Para a amazona, é uma notícia de grande importância, pois é a prova de que Diana confia nela e acredita que poderá representar a Ilha Paraíso no mundo dos homens.

— Bem, tenho um banho a tomar e algumas coisas a comunicar. Liguem para Donna e peça para vir aqui, por favor. — tão logo Diana sai da sala, os presentes se entreolham.

— Quer dizer que você voltará a ser a Mulher-Maravilha, Ártemis? — a amazona torce a boca e levanta as mãos, em sinal de não entendimento.

Embaixada de Themyscira — suíte principal, quarto da Mulher-Maravilha

— Eu sabia que você estaria aqui. — a Mulher-Maravilha termina de enrolar a toalha sobre o corpo ainda molhado. Batman apenas a observa — E sei por que você está aqui.

— Queria lhe ver. Apenas isso. — responde ele, com ar soturno. A barba ainda por fazer aparece pela abertura da máscara, desenhando o queixo.

— Tire a máscara, Bruce. Eu quero olhar nos seus olhos. — Diana pousa as mãos sobre o capuz e o afasta para trás, revelando o rosto sério de Bruce Wayne, que olha fixamente dentro de seus olhos azuis. A amazona o beija com paixão, passando suavemente sua mão direita sobre seu pescoço e a esquerda pela costela. O homem-morcego devolve o beijo na mesma intensidade, enlaçando-a pela cintura.

— Você já soube da partida da sua mãe. — pergunta ele, enquanto a envolve em um abraço e ela suspira um tímido sim — E, diante das responsabilidades perante seu povo, suspeito que essa seja nossa despedida.

— Sim. — Diana encosta sua testa no peitoral do amado.

— Por quê?

— Você mesmo disse, Bruce. Eu tenho responsabilidades em Themyscira. — o casal permanece em silêncio, Diana beija o queixo de Bruce Wayne e segura firme na máscara para colocá-la.

— E comigo, você não tem responsabilidade?

— Bruce, eu...

— Eu quero poder acordar ao seu lado e dizer o quanto está linda. Beijar sua pele e sentir o quanto é macia no final de uma noite extenuante. Eu quero saber se tudo o que sempre vivemos, nas lutas lado a lado, no desejo incontido durante todos esse anos sob palavras tensas, escondidos em leves toques de pele... e tudo isso que nos permitimos sentir será soterrado por nossas responsabilidades. Você irá soterrar minha esperança? — a Mulher-Maravilha permanece com o olhar fixo na boca de seu interlocutor, suas mãos apertam as dele com força, seus corpos permanecem unidos.

— As amazonas desejam que eu seja sua rainha. Terei que liderar Themyscira e honrar o valor da coroa até não sei quando.

— Não me importo com a distância, Diana. Eu me importo com você, e sou egoísta demais pra permitir que você saia de minha vida sem ao menos uma tentativa.

No quarto principal da embaixada de Themyscira, onde funciona a sede da Fundação Mulher-Maravilha, encontra-se um casal que se ama. Seus corpos permanecem unidos em um compasso único, com beijos sôfregos e apressados, mas ao mesmo tempo suaves e demorados. São dois heróis da humanidade, o contraste entre a luz e as sombras que unidos passam a se tornar o crepúsculo ou o amanhecer. São o início e o fim. Um homem e uma mulher formidáveis, de infinitos quesitos que os transformaram em dois dos maiores ícones do mundo, e eles acreditam que juntos poderão mais.

Outrora Bruce Wayne fora um garoto que jurou trazer vingança e fazer justiça a um mundo que tirou o que possuía de mais precioso. Diana, a pequena princesa de Themyscira, cresceu sufocada pelo amor de mil mães, com todo o esmero de uma rainha que desejaria poupar sua filha de todos os horrores que vira na antiguidade. Ambos descobriram seu próprio caminho em meio à vingança e à liberdade.

— Sim, Bruce. — responde Diana, enquanto ele adormece junto a ela — Eu não poderei negar a nenhum de nós uma tentativa.

Olimpo

— Eu gosto dos dois juntos. — diz Afrodite, enquanto visualiza a imagem de Diana e Batman em sua bacia dourada.

— Você gosta de qualquer pessoa que se beije e faça sexo sobre lençóis de seda. — responde Ártemis, enquanto se veste.

— Não, senhora, Ártemis. Bem... sexo é bom, mas eu gosto como eles combinam. Você não acha lindo como o negro dos cabelos deles se misturam? Como a mão dela pousa delicada sobre o peito dele?

— Sim, Afrodite, eles são dois belos espécimes.

— Ela precisa mesmo ser a rainha?

— Sim, precisa. — Ártemis olha de relance sobre seu ombro esquerdo e volta a olhar a imagem na água.

— Foi idéia de Atena, não foi? — Afrodite encosta o queixo entre as palmas das mãos unidas — Ela tem um plano, não tem?

— Um grande plano.

— A princesa não gosta de ser rainha.

— Nem Hipólita gosta de ser rainha.

— Hummmm. — resmunga Afrodite — Hipólita precisa de romance.

— Tudo para você precisa de romance.

— Ares gosta dela, sabia? — a deusa da caça se espanta com a afirmação da deusa do amor — Eu sinto isso, mesmo quando ele está comigo.

— Ares gosta de Diana?

— Ele deseja Diana, eu posso sentir cada poro de sua pele expandir quando a encontra. Posso ver a ereção surgir debaixo de suas calças quando ele olha para a princesa. Mas ele só a deseja, ele gosta de Hipólita. Não há nenhuma vez que seu membro não fique rígido quando pensa na rainha das amazonas. Ele vai em busca dela, Ártemis. Se o plano de Atena não conta com essa variável, Ares pode matar a rainha apenas porque ele se recusa a se entregar ao amor.

— Como sabe disso, Afrodite?

— Ele me chamou de Hipólita na noite passada. — Afrodite passa a mão de leve sobre a água, desfazendo a imagem dos dois amantes nela, e vira-se, olhando para o imenso céu rosa e laranja que anuncia o amanhecer no Olimpo — Deixe-me, Ártemis. Até o amor necessita de pausas.


Nas próximas edições: Prometi grandes mudanças, não prometi? E então: quem será a nova Mulher-Maravilha?


:: Notas do Autor

(*) Em Mulher-Maravilha # 05. voltar ao texto




 
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