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Liga da Justiça # 05

Por Fernando Lopes

Um Lugar Entre os Deuses

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A pequena multidão de curiosos aglomera-se na praça central de Fawcett City, olhando para o céu. Os mais privilegiados forçam ao máximo o zoom de suas câmeras de vídeo para tentar registrar o momento. Um binóculo é disputado entre palavrões por dois garotos. Os fotógrafos apontam suas teleobjetivas para o infinito azul da manhã. Enquanto isso, a 250 metros do solo, os responsáveis pela agitação permanecem alheios ao burburinho, desafiando a lei da gravidade. Acostumados ao assédio, duas das mais poderosas criaturas da Terra concentram-se em assuntos de maior importância. Após um minuto de silêncio, o semideus com alma de menino responde, angustiado.

— Eu não sei o que dizer, Super-Homem. — responde, por fim — Não sei se estou preparado para isso. Ainda mais depois desse fiasco...

— Não diga bobagens, Billy. — diz Homem de Aço, chamando o Capitão Marvel por seu verdadeiro nome — Acontece o tempo todo. Para ser sincero, não conheço um super-herói que não tenha sido vítima de controle mental pelo menos uma vez. Já virou clichê.

— Mas logo o Mesmero? Não tinha um vilãozinho menos meia-boca, não?*

O Super-Homem ri do comentário. Dentre todos os meta-humanos do planeta, o Capitão Marvel é um dos poucos capaz de fazer frente ao último filho de Krypton. Mas não é a sabedoria de Salomão, nem a força de Hércules, nem o vigor de Atlas, nem o poder de Zeus, nem a coragem de Aquiles ou a velocidade de Mercúrio que o tornam especial. O que o faz realmente único é o fato de todos esses dons estarem sob controle de uma criança. Um garoto que sonhava ser como seu pai, e recebeu de um antigo mago poderes que o transformam no mortal mais poderoso da Terra. Um jovem chamado Billy Batson, o coração e a alma por trás do Capitão Marvel. E é essa alma de menino que agora sente-se insegura em aceitar o convite do maior dos heróis.

— Quando deixei o grupo há alguns anos, — prossegue Marvel — eu já me sentia deslocado. E olha que a equipe, com todo o respeito, não era... como vou dizer... não era lá grande coisa. Se eu não me senti à vontade ao lado de caras como Gladiador Dourado, Besouro Azul e Guy Gardner, como é que vai ser quando eu tiver que encarar sujeitos do porte do Batman, Aquaman ou Zauriel? Diacho, o cara é um anjo de verdade! Não, não acho que seja uma boa idéia...

— Preste atenção, Billy. — o Super-Homem tenta ser, ao mesmo tempo, incisivo e condescendente — Não só apoiei seu nome para se tornar um membro efetivo da Liga da Justiça como fiz questão de convidá-lo pessoalmente. E sabe por quê? Porque você é um herói na mais pura essência da palavra. Com seu poder, você seria capaz de conquistar o mundo. Em vez disso, decidiu dedicar-se a ajudar quem precisa. E não faz isso por fama, dinheiro, glória ou vingança. Faz porque seu coração lhe diz que é a coisa certa a fazer. Se isso não é ser um herói, não sei o que é.

Envaidecido e ligeiramente envergonhado, o Capitão Marvel pondera as palavras do Homem de Aço, um de seus ídolos.

— Além do mais, — emenda o Super-Homem, percebendo a hesitação de Billy — se o Mortal Mais Poderoso da Terra não for digno de estar na Liga da Justiça, quem será?

— Bem, se você diz isso... — diz o jovem herói, encabulado — Eu aceito. Só espero não decepcioná-lo.

— Não vai. — responde o Homem de Aço, estendendo a mão -Tenho certeza.

Sobre o céu de Fawcett City, mãos capazes de mover o mundo unem-se num cumprimento caloroso, anunciando o início do novo capítulo de uma lenda.

Pelos corredores silenciosos, o nervoso reitor da Universidade de Ivy Town acompanha o homem alto e de feições severas até o prédio do Departamento de Ciências. Os longos cabelos louros e a barba cerrada dão ao visitante um ar de nobreza que, a bem da verdade, faz jus à sua condição de monarca. O gancho em sua mão esquerda, porém, demonstra que este soberano não é apenas a figura decorativa de uma monarquia moderna, mas um rei guerreiro como os das lendas medievais. Sua presença imponente contrasta com a figura mirrada do reitor, que tenta disfarçar o nervosismo.

— Fica no final do corredor à esquerda, majestade. Ele está em aula, agora. O senhor avisou que viria?

— Não. Estou em missão oficial da Liga da Justiça. Deveria ter marcado hora? — os olhos profundamente azuis de Aquaman fuzilam o reitor.

— Não, em absoluto! — o suor brota incessantemente da careca do homenzinho, que se apressa em remediar o mal-entendido — É que, se soubéssemos de sua visita, teríamos preparado uma recepção mais apropri...

— Obrigado, mas isso não é necessário. Talvez em outra oportunidade.

Aliviado, o reitor indica a sala e faz menção de bater na porta, mas é impedido com um gesto breve.

— Eu assumo daqui.

Quando a porta se abre, 32 pares de olhos se arregalam. Entretido em escrever algo no quadro negro, o professor Ray Palmer — mais conhecido como Eléktron — prossegue em sua explicação sem perceber a chegada do visitante.

— ... assim, se levarmos em conta que a aceleração...

— Posso interromper?

— Quem? — Ray surpreende-se ao ouvir o estranho sotaque que conhece há anos — Não é possível! Arthur!

— Como vai o professor de Física mais famoso do mundo? — o rosto de Aquaman ilumina-se com um sorriso. Um fato raro, normalmente presenciado apenas pelos amigos.

Diante da turma de aparvalhados alunos, dois velhos companheiros de batalha se cumprimentam com alegria. Juntos, esses homens lutaram várias vezes para salvar o mundo de incontáveis ameaças. Agora, conversam e riem como duas pessoas absolutamente comuns. Palmer se lembra da classe e faz as honras.

— Senhoras e senhores, conheçam sua majestade real de Poseidonis, o rei Orin, popularmente conhecido como o primeiro e único Aquaman.

— Como vão todos?

A deixa do professor é suficiente para que os alunos cerquem os dois homens e os bombardeiem com perguntas e pedidos de autógrafos. Quinze minutos depois, ambos estão no Departamento de Esportes, ao lado da piscina olímpica da Universidade.

— Como está a água?

— Clorada. — responde Aquaman, o rosto emburrado — Mas é melhor do que desidratar nas mãos dos seus alunos.

— O velho bom humor de sempre, hein, Arthur? O que me leva a querer saber o real motivo de sua presença aqui. Você não ia se aventurar tantos quilômetros terra adentro só para uma visitinha social.

— Sinto um tom ligeiramente crítico nessa frase... Mas você tem razão, Ray. É assunto da Liga. Queremos você de volta no grupo.

— Por que eu? Há tantos outros disponíveis. Aliás, o mercado de spandex anda meio inflacionado...

— Sofremos muitas baixas ultimamente. — o ar grave volta ao rosto de Aquaman — O grupo ficou desfalcado.

— Eu soube... a Caçadora foi parar no hospital...

— Também perdemos Órion e Barda. Foram chamados de volta a Nova Gênese. Kyle está de licença. E Aço também está fora, ao menos por enquanto. Sua armadura foi praticamente destruída na batalha contra os N'Garai** e ele precisará de um tempo para reconstruí-la. Além disso, ele quer se dedicar mais à família.

— Família... Esse ramo acaba com qualquer possibilidade de uma vida normal. Sei bem o que é isso...

— Ambos sabemos. — um silêncio pesado paira no ar por um momento, os dois homens refletindo sobre as perdas que a carreira heróica lhes impôs.

— Não sei, não. — o professor Palmer retoma a conversa — Esse novo grupo é bem diferente da nossa época. Mais poderoso também. Não sei se eu faria uma grande diferença, se é que me entende.

— Do velho grupo sobramos eu e J'onn. Estamos pensando em trazer o Ollie de volta.

— Ollie? Putz, vocês são doidos...

— Quanto a fazer diferença, me parece que você está querendo confete. Não fosse pela sua ajuda, não conseguiríamos desfazer os estragos causados pela máquina da sorte de Julian September***. E, embora não saiba, sua versão futura nos ajudou a derrotar Darkseid****. Além do mais, Batman vai querer minha cabeça se eu não convencê-lo. Ele diz que você é fundamental para o grupo. E então, o que me diz?

— Batman, hein... Tá, tudo bem, pode contar comigo. Além da vida, do emprego e da sanidade, o que mais eu tenho a perder?

Ao deixar seu lar na Ilha Paraíso, a princesa Diana de Themiscyra tinha como missão divulgar a filosofia de igualdade e paz das Amazonas. Ao chegar ao mundo do patriarcado, combateu a injustiça ao lado de guerreiros de ambos os sexos e foi batizada pela imprensa como Mulher-Maravilha, um título que sua mãe usou com orgulho no passado. Hoje, ela atua novamente como emissária. Pacientemente, a princesa flutua sobre o céu noturno de Nova Orleans, aguardando a chegada de outra guerreira. O rastro de luz que corta a negritude da noite indica que sua espera está terminando. À sua frente, uma forma luminosa de grande beleza assume a aparência da ex-Vingadora conhecida como...

— Fóton! Fico feliz que tenha vindo. É um prazer conhecê-la.

— É uma honra, princesa.

— Sabe por que está aqui?

— Para ser sincera, não faço idéia. O Capitão América não me explicou nada. Disse apenas que a Liga da Justiça queria entrar em contato comigo. Posso ajudá-los em alguma coisa?

— Pode. E muito. E é por isso que estou aqui. Gostaria de convidá-la para tornar-se membro efetivo da Liga da Justiça.

Monica Rambeau já passou por muita coisa em sua vida. Quando era apenas uma simples capitã da patrulha portuária, foi bombardeada por energias extradimensionais que lhe deram poderes inimagináveis, permitindo que transformasse seu corpo nas mais variadas formas de energia, preservando sua consciência. Chegou ao posto de líder dos Vingadores, e com eles viajou aos pontos mais distantes do cosmo. Nada disso, porém, a preparou para aquele momento.

— Na Liga da Justiça? Eu? Você deve estar brincando!

— Posso lhe assegurar que não. — o sorriso da Mulher-Maravilha acentua ainda mais sua beleza divina — Por que estaria?

— Bom, eu sei lá... É que isso me parece tão... repentino. Mais, me parece desproposital. Por que eu?

— Perdemos alguns companheiros de batalha recentemente. — uma sombra de tristeza manifesta-se no rosto da princesa — Decidimos buscar reforços entre os mais poderosos da Terra. Seu nome foi uma indicação natural.

— E o fato de eu ser mulher e negra não teria nada a ver com isso, teria?

— Desculpe, não entendi a pergunta. — a Mulher-Maravilha sente-se desconcertada — O que quer dizer?

— Princesa, você já está a tempo suficiente em nossa sociedade para saber que ela é muito diferente da sua. Costumamos ser intolerantes com tudo o que é diferente. E as discriminações sexuais e raciais estão entre as mais antigas. Não seria uma forma de, digamos... calar os críticos? Uma atitude "politicamente correta"? Afinal, seu grupo não tem nenhum negro ou mutante. E a proporção de mulheres também é bem pequena.

— Isso... é ridículo! — a Mulher-Maravilha faz um grande esforço para se conter — Chega a ser ofensivo, se quer minha opinião!

"Acho que peguei pesado", pensa Monica, percebendo a infeliz colocação de palavras.

— Desculpe se a fiz sentir-se assim, princesa. Não foi minha intenção ofendê-la ou parecer descortês. Mas vivemos tempos estranhos. A discriminação é um fato, goste você ou não. Sua herança real, sua cultura, seus poderes divinos e sua beleza branca a fazem não entender do que estou falando. Mas quando se nasce mulher e negra, as coisas tendem a ser um pouco mais difíceis.

— De onde venho, Fóton, as pessoas são julgadas por seus méritos, não pela cor de sua pele ou pelo sexo. — Diana fala com frieza — Não importa quanto tempo eu viva em sua sociedade, jamais entenderei seus mesquinhos preconceitos. Mas entendo seu ponto de vista. Sinta-se à vontade para recusar, se quiser.

— Confesso que estou confusa, Mulher-Maravilha. Não esperava um convite desses. Além disso, sou membro-reserva dos Vingadores. Não sei se isso poderia causar algum tipo de embaraço.

— O Super-Homem já conversou a esse respeito com o Capitão América. Ele disse que não há problemas. Além disso, a Liga da Justiça só é acionada para resolver situações de crise mundial, onde a colaboração dos Vingadores é sempre bem-vinda. Não há conflito de interesses. Estamos somando forças, não dividindo.

Monica cala-se por alguns instantes. Estar entre os melhores do mundo não é o tipo de convite que se recebe todo dia.

— Bem, se o Capitão não vê problemas... Posso tentar. É uma honra poder ajudar.

— Cheguei a achar que não pensasse assim. — dispara a Mulher-Maravilha, ressentida — De qualquer modo, isso não importa. Entraremos em contato em breve para comunicá-la de nossa próxima reunião. Nós lhe forneceremos um teleportador para levá-la à Torre de Vigilância.

— Não sei se será necessário. Posso chegar à Lua rapidamente em minha forma luminosa.

— Que seja, então. Bem-vinda ao grupo. Veremo-nos em breve.

A princesa amazona alça vôo com a graça habitual, mas seu rosto permanece duro como mármore. Monica Rambeau observa enquanto ela se afasta, pensando se agiu corretamente. "Droga, acho que comecei com o pé esquerdo..."

Enquanto aguarda para ser atendido, o sujeito de paletó cinza, sobretudo e chapéu observa o estranho prédio baixo, que se destaca mesmo aqui, no Soho, bairro de artistas e intelectuais de Nova Iorque. "Uma construção incomum para um homem incomum", pensa enquanto toca novamente a campainha. A porta se abre e um oriental totalmente calvo pergunta, em tom baixo e ainda com sotaque:

— Em que posso ajudá-lo?

— Gostaria de ver o doutor Stephen Strange. Tenho hora marcada.

— O senhor está sendo aguardado, senhor...

— Russell. Paul Russell.

O visitante é conduzido a uma sala repleta de antigüidades e livros. Um cheiro forte de incenso domina o ambiente. Ele passa a observar uma curiosa máscara de mosaicos de turquesa esverdeada.

— Lembra algum conhecido?

O visitante se vira na direção de seu interlocutor. O homem magro de têmporas grisalhas, cabelos, bigode e cavanhaque negros, parece ter surgido do nada.

— Como disse?

— Nada importante.

— É uma peça muito interessante. É maia?

— Asteca. É uma representação de Quetzalcoatl.

— O deus asteca da criação.

— Exatamente. Nunca imaginei que se interessasse por mitologia terrestre, senhor "Russell". Ou devo chamá-lo de Caçador?

— Melhor do que isso, — responde o alienígena transmorfo, assumindo a forma na qual ficou mais conhecido na Terra — pode me chamar de J'onn.

— É um grande prazer conhecê-lo, J'onn.

— Igualmente. Como descobriu?

— Poucas coisas podem escapar do Olho de Agamotto, meu amigo. — diz o mestre das artes místicas, tocando o amuleto que traz no peito. — Em que posso lhe ser útil?

— Em primeiro lugar, gostaria de agradecer pela colaboração contra os N'Garai. Sem seus conhecimentos, o resultado da batalha poderia ser bem diferente.

— Foi um prazer ajudar. Percebi a infiltração dos demônios assim que eles se materializaram em nossa dimensão. Preparava-me para partir para o Arkansas quando Batman entrou em contato.

— Suas informações foram muito valiosas. O que me leva à outra razão que me trouxe aqui. Gostaria de convidá-lo a fazer parte da Liga da Justiça.

Desde que se tornou o Mago Supremo da Terra, o ex-cirurgião Stephen Strange tem protegido o mundo de poderosos inimigos. Embora tenha lutado ao lado de valiosos aliados entre os Defensores, trabalhar em grupo não era exatamente comum em sua carreira. Por isso, ele reflete com profundo cuidado antes de responder ao convite.

— É verdadeiramente uma honra, J'onn. Mas não sei se devo aceitar.

— Importa-se se eu perguntar o motivo?

— Bem, diferente dos chamados 'super-heróis', minhas... atividades não são exatamente públicas. Não tenho uma 'identidade secreta' a preservar, mas apenas minha própria identidade. Ser o Mago Supremo da Terra não me impede de levar uma vida normal, se é que isso existe.

— Não sei se entendi onde o senhor pretende chegar.

— O fato é que a Liga da Justiça sofre de uma... exposição excessiva à mídia. Seus membros estão constantemente nas páginas dos jornais e nos noticiários. Esse tipo de publicidade não me agrada, nem tampouco me interessa.

— Percebo. Infelizmente, é um problema que está além de nossa capacidade. A curiosidade é um dos traços mais marcantes dos terráqueos, e a imprensa apenas cumpre seu papel. Às vezes com um certo exagero, é verdade. Mas é o preço a pagar.

— Fico feliz que compreenda.

— Isso não quer dizer que aceite sua recusa...

— Desculpe-me, agora fui eu que não entendi.

— Respeito sua decisão, doutor Estranho, mas gostaria que pensasse melhor. Participar da Liga da Justiça não significa necessariamente ficar sob os refletores o tempo todo. Se fosse assim, Batman seguramente jamais teria entrado para o grupo. Além disso, embora sejamos poderosos, estamos particularmente vulneráveis a ameaças de origem mística. A invasão dos N'Garai foi uma amostra disso. Mesmo com a ajuda de Zauriel, tememos não estar à altura de outros ataques do gênero.

— Ah, Zauriel... — o doutor Estranho parece subitamente interessado — A imprensa diz que ele é um anjo de verdade, não é?

Ainda que não fosse um telepata de primeira grandeza, J'onn J'onzz saberia de imediato que a presença de um anjo na Terra deveria no mínimo atiçar a curiosidade de um mago do porte do doutor Estranho. Ele aproveita a deixa.

— Um anjo, doutor. Diretamente das hostes do Paraíso para a Torre de Vigilância. Uma entidade verdadeiramente única.

— Hmm... Entendo. Bem, talvez possamos fazer um teste, afinal. Um período de adaptação. Isso não representa um compromisso formal, é claro. Mas talvez eu possa colaborar, desde que isso não implique em exposição excessiva.

— Não se preocupe com isso, doutor. — o Caçador tinha capturado outra presa — A Liga só atua em crises globais de grande porte. Sua privacidade será resguardada. Tudo o que pedimos é disponibilidade quando seus talentos se fizerem necessários.

— Façamos um teste, então.

— Excelente. O senhor receberá uma unidade teleportadora para que possa chegar à Torre de Vigilância. Bem-vindo ao grupo.

Os dois homens se despendem e o Caçador de Marte parte, invisível aos olhos humanos, sobre a cidade de Nova Iorque.

— Um anjo...

— Disse alguma coisa, senhor? — Wong entra na sala e percebe a ausência do visitante — Seu convidado já partiu?

— Ele tinha um compromisso e saiu voando, Wong. Como um anjo...

O armazém está em nome de uma grande empresa de exportação de maquinário agrícola, mas não são tratores que os homens cercados de guarda-costas negociam. A transação de drogas alcançaria cifras de seis zeros se fosse completada. Se fosse completada. Algo que o homem em traje verde não pretende deixar que aconteça.

— Trouxe o dinheiro?

— Está aqui. — o traficante coloca uma valise sobre o capô do carro, mas não chega a abri-la. Uma flecha trespassa a maleta, chamando a atenção dos criminosos.

— Acho que sua pequena transação foi cancelada. — diz o homem de cavanhaque louro empoleirado no alto de alguns engradados. — Não tentem nenhuma gracinha.

Dois guarda-costas tentam sacar suas armas. Um deles tem a mão atravessada por uma flecha, enquanto o segundo vê outra atravessar sua calça, a milímetros dos genitais.

— Tente isso de novo e eu grudo suas bolas no chão. — o rosto do Arqueiro Verde é encoberto pelo capuz — Quero todo mundo com as mãos onde eu possa ver. Armas no chão. Devagar.

Concentrado nos homens abaixo, o Arqueiro não vê o atirador do outro lado do armazém. O disparo atinge seu pescoço de raspão, desequilibrando-o e dando aos outros criminosos a chance que esperavam. O disparo das armas automáticas deixa-o ilhado no alto dos engradados.

— Merda. Eu devia ter olhado com mais atenção. Agora estou f...

Súbito, bombas de fumaça explodem no meio do armazém, deixando os traficantes às cegas. Tiros e gritos ecoam durante os 30 segundos subseqüentes, desaparecendo aos poucos. Oliver Queen sabe o que está acontecendo e se levanta, contrariado, para assistir ao espetáculo. Repentinamente, tudo acaba. Quando a fumaça se dissipa, doze homens estão no chão, desacordados. O Arqueiro salta dos engradados e começa a colocar os corpos juntos.

— Tá legal, o showzinho acabou. Pode sair para a luz que eu não estou com saco pra teatrinho.

As sombras ganham vida quando uma figura imponente deixa as trevas.

— Você está ficando descuidado.

— E você continua metido. O que quer?

— Conversar.

— Sobre?

— Quero você de volta na Liga.

— Ah, quer? Foda-se. Estou fora.

— Está com medo?

— O que foi que você disse?

— Exatamente o que você ouviu. Você está com medo.

— E você despirocou de vez. Sabe do que mais, não quero ficar aqui ouvindo suas babaquices. — o Arqueiro dá as costas para o Homem-Morcego e prepara-se para sair — Vou chamar a polícia e dar o fora daqui. Vê se me esquece.

— Você não sairá antes de ouvir o que eu tenho a dizer.

Virando-se com surpreendente velocidade, o Arqueiro dispara uma flecha na direção onde o Batman estava. A seta passa no vazio. Um potente cruzado de direita joga Oliver Queen a dois metros de distância. Ele cai pesadamente, as flechas espalhando-se pelo chão. O homem de negro coloca-se à sua frente.

— Se você já acabou com a palhaçada, podemos conversar.

— Já disse que não quero saber! Pra que orelhas desse tamanho se você é surdo?

— Preciso de você na Liga.

— Por quê? Mais um para o seu grupinho de super-fascistas? Tô fora!

— É exatamente por isso que preciso de você.

— Não entendi.

— Esta é a mais poderosa formação da Liga da Justiça já criada. Poucas vezes tanto poder foi reunido numa só equipe. E o poder absoluto corrompe absolutamente.

— Mais uma razão para eu querer distância.

— Não, mais uma razão para que você se junte a nós. A Liga da Justiça está carente de humanidade, Oliver. Pessoas normais, que enxergam o mundo do ponto de vista das pessoas comuns, não do alto de sua divindade. Alguém que ligue o grupo à realidade que está além das ameaças cósmicas e dos maníacos com ilusões de grandeza. Não conheço ninguém melhor do que você para fazer isso.

— E você?

— Sua percepção da realidade é... melhor do que a minha.

— Pensei que ia morrer antes de ouvir isso. Mas minha resposta continua a mesma. Não preciso da Liga da Justiça.

— Precisa. Desesperadamente. Você está se expondo cada vez mais a riscos desnecessários. Morrer não é a solução, Ollie.

— Besteira! Se você pensa que vou pirar como Hal, está muito enganado!

— Você se culpa pelo que aconteceu a Jordan, mas não tem nada a ver com isso. Cada um faz suas escolhas, Oliver. Você sempre fez as suas, não importando o quanto isso o ferisse. Você sabe que estou certo. Junte-se a nós.

Oliver Queen pensa nas palavras do Homem-Morcego. Talvez, neste momento, a Liga da Justiça seja aquilo de que ele precisa para ajudar a superar o sentimento de perda que o assola desde que todos a quem amava o deixaram só.

— Tá legal, tá legal... Qualquer coisa para você parar de encher o meu saco.

— Ótimo. Entraremos em contato.

— Peraí, você vai saindo assim? Não vai me ajudar com essa bagunça? — o Arqueiro olha para os traficantes caídos — Pelo menos amarra uns dois ou...

Oliver Queen está falando sozinho.

— Eu odeio quando ele faz isso.

:: Notas do Autor

* Como visto em Justiça Jovem.
** Ocorrida em LJA # 03.
*** Melhores do Mundo #20, editora Abril.
**** Melhores do Mundo #18, editora Abril.



 
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