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Vingadores # 04

Por Délio Freire

O Admirável Mundo Novo dos Skrulls
Parte Final

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Os últimos quinze minutos transformam-se em uma mancha na mente de Steve Rogers e, em breve, os poucos detalhes do combate se esvaem de sua mente, ficando apenas a imagem do sangue. As mãos do Capitão América seguram o escudo sobre sua cabeça, tentando sucessivas e violentas investidas contra a porta, seus olhos tentando se afastar da imagem dos monitores. Rogers é experiente na arte da guerra e já viu muitas mortes. A maioria, desnecessária; outras, apenas parte do jogo. Mas há algo particularmente horrendo na concepção deste ritual de violência calculada em que estão metidos os Vingadores.

Os monitores enviam imagens de algumas obras de irrigação em direção aos vales desertos, pontes construídas sobre grandes precipícios e estradas estreitas em que circulam algumas naves dos Skrulls; em geral, um único e velho veículo espacial parece monitorar cada região de combate, aguardando os derrotados caírem para transportá-los para o Palácio.

Seu quarto vazio, após a saída da Imperatriz S'Byll e de seu marido, Kl'rt, torna-se novamente a prisão bem cuidada e asséptica que o perturba. Aparentemente, as intenções da mãe do povo skrull são em busca de paz através de um torneio intergaláctico.

"Mas seus aliados, definitivamente, não me trazem a mesma confiança", pensa o Rogers, chutando a porta em mais uma inútil investida. O velho soldado respira fundo, afastando-se da porta. Ao lado dela, um pequeno computador apresenta alguns signos aparentemente análogos aos números romanos. Para sua surpresa, o computador começa a soltar faíscas e a acionar uma combinação de dígitos, como se uma mão invisível estivesse a operá-lo. A porta se abre, e uma vez mais o Capitão América posiciona o escudo em posição de combate.

O aposento em que estão Mercúrio e Viúva Negra é circular, com uma abóbada prateada e a pele de um animal selvagem da região na porta de entrada.

— Céus, como eles conseguiram construir algo tão frio e assustador? — Natasha sente-se incomodada com o ambiente, pousando uma das mãos sobre a parede fria.

Pietro parece não prestar atenção no que sua aliada diz. Está sentado em uma cadeira, brincando com três copos, fazendo malabarismos sem permitir que caiam. Natasha observa com estranheza o comportamento isolado de Mercúrio. O velocista sempre teve um temperamento difícil mas, de uma forma ou de outra, sempre acabou se adaptando ao grupo. Aparentemente, ela é a única a notar seu distanciamento.

— Pietro?

— Hmm? — seus olhos estão fixos nos copos.

— Você está bem? Desde que voltamos aos Vingadores que o sinto mais distante que o habitual. — ela hesita antes de entrar no assunto — Algum problema com Crystalis ou Luna?

— Não seja indiscreta, Natasha! — ele pára com o malabarismo — Não é por pertencermos ao mesmo grupo que somos amigos. Se jogar esse jogo, vou querer saber qual o próximo homem que está em sua mira. — sua voz apresenta uma insensibilidade maior do que o habitual — Não pude deixar de ver seus olhares para o Homem-Animal durante a entrevista coletiva.

— Buddy? Você está louco, Pietro? — em seu íntimo, ela sabe que ainda existe um demônio em Nova York que mexe com ela.

— Natasha, os motivos que me levaram a voltar aos Vingadores são os melhores possíveis; apesar de achar que um dia nossos interesses entrarão em conflito.

— Como assim?

— Eu tenho uma obra a realizar. E o status que os Vingadores me oferecem é mais do que útil. — suas palavras soam enigmáticas e sua atenção se volta para seu joguinho com os copos.

Um estalo é ouvido pelos dois; a porta se abre. A tendência da Viúva Negra em ser cautelosa com cada acontecimento, nascida de experiência, a impede de partir para o ataque. Antecipando os movimentos de sua aliada, Mercúrio percorre metade da sala, escancara a porta e desfere uma sucessão de golpes, surpreendentemente contidos com força por uma mão fria.

— Aí está ele outra vez... Mercúrio, acalme-se. — Visão, que os resgata entrando na estrutura dos computadores alienígenas, percebe que sua densidade aumentou desde o início do ataque do mutante. Ele olha para as mãos de Pietro: estão inchadas, seus olhos ligeiramente sobressaltados e em fúria.

A voz de Vanda acalma o irmão, enquanto ambos, ao lado de Visão e Viúva Negra, ouvem os planos do Capitão América.

Terra — Base Secreta de Arjuna

— Arghhh!


— Mais cuidado, senhor. Não podemos quebrar a perna de nossos próprios guerreiros — um tom de preocupação marca a voz de Lagus, principal conselheiro de Arjuna, ao ver a cena.

— Sábio Lagus, esse tipo de exercício sempre me faz bem.

Arjuna se levanta, demonstrando desprezo pelo adversário derrotado, que agoniza diante dele.

— Se não soubesse que tal demonstração de força acompanha um senso de liderança razoável e uma saudável capacidade para ouvir seus conselheiros, realmente estaria preocupado.

— Poupe-me, Lagus — alguém joga uma toalha para Arjuna, que rapidamente começa a secar o suor — Adiantou algo a respeito de nosso próximo passo?

— Senhor, que desconfiança primária! Ninguém mais do que eu poderia se preocupar em ver as coisas caminharem corretamente.

— Falou ou não com o mercenário francês?

— Ele se recusa a aceitar o valor que estipulamos.

— Dobre.

— Mas, senhor...

— Dobre, você me ouviu. Não podemos perder essa oportunidade de adiantar nossos planos. E a imagem dos Vingadores não deve ser a mais confiável assim que começarmos o ataque.

Lagus caminha pensativo em direção à sala de operações. Ele sabe que o momento não é para a hesitação, mas tem receio em arrastar criminosos para uma operação importante envolvendo a causa. Felizmente, a primeira operação deu seus frutos quando, diante da mídia nacional, os Vingadores se apresentaram para dar explicações sobre uma operação fracassada. (*) Para Arjuna, o grupo pode se tornar o maior empecilho para seus planos de conquista. Assim, não resta mais nada a seu conselheiro senão fazer valer a vontade de seu mestre.

— Batroc?

— Oui?

— Você terá o dinheiro que quer para realizar nosso trabalho.

Terra — nas ruas de Nova York

— Mas o que há? Você tem claustrofobia ou algum problema urinário? — em um depósito abandonado e escuro, uma figura de fantasia amarela, peruca e uma pele de ovelha envolvida em seu pescoço dá o tom da conversa diante de uma homem assustado, que começa a mijar nas calças — Preciso de informação, seu mongol!

— Meu nome... Você sabe meu nome! — o criminoso começa a tremer ainda mais.

— O quê? Mongol é seu nome? — a risada do herói conhecido como Rastejante domina o ambiente — Porque isso não me surpreende?

— Olha, moço. Não sei muito. Nem é segredo assim, como ce pode pensar... Há algumas semanas, alguns xarás nossos tão comendo capim pela raiz, desaparecendo ou então amanhecendo com o pescoço quebrado...

— Guerra de gangues? É isso?

— Não, não. É o que os jornais têm dito por aí, mas a verdade é bem outra. A gente das ruas sabe bem... Tem um maluco por aí quebrando os criminosos, fazendo justiça com as próprias mãos.

— Como ele é?

— Num sei... Ninguém nunca viu direito... Ele já enfrentou gangues inteiras e ninguém nunca viu ele direito.

— Mas como?

— Num sei... Deve ser porque ele é rápido como o diabo, moço.

Um forte barulho interrompe a conversa.

— Saiam daí, é a polícia. Atenção, vou arrombar a porta.

— Tamo fudido, seu moço — diz Mongol, enterrando a touca mais ainda em sua cabeça.

— Nós, não... Você.

Com um pequeno atrito entre os dedos, o Rastejante aciona o ativador escondido sob sua pele, tornando sua fantasia invisível. O repórter conhecido como Jack Ryder, identidade secreta do Rastejante, vê-se apenas de cuecas e, assim que o policial invade o depósito, ergue as mãos diante de um atônito Mongol.

— A polícia de Nova York... — diz Ryder, agradecido, ao policial — Onde estaríamos se ela não estivesse sempre pronta para nos livrar dos facínoras de plantão?

Em meio a uma arena lotada de skrulls para assistir a final entre seu povo e os terráqueos, a agitação é total. Os braços de Thor empurram com rapidez seu oponente de encontro à parede. Às suas costas, o Príncipe Submarino enfrenta o Superskrull. As mãos de seu adversário estão incandescentes, tornando-se um duplo perigo ao toque e fazendo Namor suar enquanto tenta impedir sua aproximação.

— Se achas que aceitarei ordens suas... — resmunga Thor

Os braços de Namor, com movimentos rápidos, fazem Kl'rt se afastar um pouco. Um murro no queixo do alienígena o deixa ligeiramente tonto, fazendo-o afastar-se ainda mais, cambaleante.

— Acredite em mim. Faça o que eu disse.

— Nunca! Ninguém toma decisões por mim.

O skrull de quase dois metros se desvia do soco de Thor, que atinge a parede, furioso e aos berros. O gesto repentino agita ainda mais o Homem-Animal que, ainda preso em sua forma simiesca e deformada, enfrenta seu inimigo.

— Será que Vanda e Visão conseguiram libertar os outros? — pergunta a Supermoça, enquanto se desvia de seu adversário. Ela limita seus gestos, desejando demonstrar menos força do que possui, e olha para Namor. A cada dia que passa, sua presença a incomoda mais e mais. Não se trata apenas da atração que ele demonstra sentir por ela. Por algum motivo desconhecido, aquele atlante a assusta.

— Eu confio neles. Eles irão livrar os outros. — Namor está ofegante, as mãos apoiadas nos joelhos, enquanto observa Kl'rt se levantar rapidamente — Agora calem a boca e façam como eu planejei. Contenham-se até a chegada de reforços.

A Imperatriz Lilandra ouve um grito indistinto e vê sua frota de naves de Shi'ar espalhar-se pelas estrelas. Algumas têm seus canhões laser atirando para os lados e deslizando impetuosamente para abaixo. Subitamente, um clarão vermelho é seguido pelo segundo e, sem estrondo, o casco da nave Khúndia explode e flutua preguiçosamente em direção ao novo mundo dos skrulls. Um novo clarão se segue.

À medida que cada nave Khúndia explode, um pequeno grupo de outras naves próximas simplesmente desaparece. Apesar disso, o ímpeto do ataque causa espanto à Imperatriz, enquanto sua frota continua a avançar.

— Que fazemos com eles? — pergunta um dos generais do Império Shi'ar.

— Com a destruição da nave líder, vamos avançar antes que se reagrupem. — informa Lilandra

— A senhora não acha que eles seriam loucos em tentar uma nova investida?

— Às vezes, acho que os Khúndios são suficientemente malucos para tentar qualquer coisa. — diz ela, entediada, enquanto observa a movimentação das tropas inimigas

— Porque simplesmente eles não se aliaram a nós?

— Orgulho. — responde Lilandra — Seria mais fácil unirmos forças. Eles querem o mesmo que nós: a libertação dos campeões presos no novo mundo Skrull. Já foi difícil para mim unir thanagarianos, krees, daxamitas e outros povos tão díspares entre si em tempo hábil, mas enfrentar os Khúndios querendo fazer todo o trabalho sozinho é um desperdício de forças ridículo.

A nave trepida enquanto faz uma manobra, todos se seguram.

— Os terráqueos irão cooperar?

— Sem dúvida.

— Não sei porque confia neles, Imperatriz. Só querem sair de lá e não estão em número suficiente para lutarem contra a frota Skrull.

— Tracei telepaticamente um plano com os dois líderes principais: Capitão América e Namor. Eles vão nos fazer um grande favor, antes de partir...

— Qual?

— Arrancar a cabeça da serpente.

Um clarão subitamente ilumina os rostos surpresos dos lutadores. A arena enche-se de um cheiro forte e desagradável com a chegada da nave Skrull, que pousa no centro do combate final com Visão como piloto e os outros Vingadores como tripulantes.

— Supermoça! — berra Namor, fazendo um sinal com as mãos, enquanto tenta se desvencilhar de Kl'rt.

— Lilandra de Shi'ar nos informou de seu plano em tempo. Você quer deturpar a idéia da Imperatriz Skrull de um jogo pacífico; quer se livrar de todos os campeões alienígenas. — a voz do Príncipe Submarino sai com dificuldade enquanto a garganta é pressionada pelo adversário — Você e seu exército serão... rechaçados...

— Veremos!

Uma batidinha inconveniente nas costas chama a atenção do Superskrull. Ele não olha para trás, até ser violentamente puxado para longe de Namor por Thor, que o encara com um sorriso de escárnio e começa a golpeá-lo sucessivamente no rosto até levá-lo ao chão.

O Deus do Trovão rapidamente coloca o adversário em seu ombro, entrando pela porta da nave que se abre. Namor se ocupa em convencer o transfigurado Homem-Animal a entrar na espaçonave, enquanto observa Supermoça se desviar de raios laser de soldados skrulls, até chegar à Imperatriz S'Byll, que é segura pelo braço.

— Mas o que...

— Acalme-se. Você vem conosco.

Assim que o último dos Vingadores entra na nave, trazendo consigo os dois líderes skrulls, conforme o combinado, surge a frota de alienígenas comandada pela Imperatriz Lilandra. Isso não impede que um canhão Skrull atinja a asa da nave pilotada por Visão. A parte traseira está cheia de fumaça e chamas, que consomem o material da fuselagem. Enquanto o deslocamento do ar varre os gases e extingue o fogo, o Capitão América percebe a extensão dos danos e conclui que a nave está condenada. "É uma questão de tempo até que o fogo atinja os tanques de combustível, neutralizando os motores ou explodindo a nave."

— Preparem-se para abandonar! — grita Rogers

A aparência simiesca de Buddy Baker lentamente passa a regredir à forma original. Seus olhos começam a lacrimejar, provavelmente por efeito da fumaça passar e pela dor da transformação. É uma das primeiras — e, com sorte, a última — vez que se conecta a um animal alienígena. Ele olha para os Vingadores ao seu redor, agitados e berrando. Respira fundo e se cala, resignado e esperando qualquer que seja o desfecho.

— Você está louco! Vamos cair no mar e virar alvos fáceis! — grita Natasha Romanoff

— Vamos arriscar! — reafirma o Capitão

— Não! Confiem em mim! — pede o Visão, conectando-se ainda mais à estrutura alienígena da nave. A Feiticeira Escarlate, ao seu lado, põe a mão em seu ombro — Eu posso nos tirar daqui.

Com gestos ágeis das mãos do sintozóide, os comandos passam a responder mais rapidamente. A nave começa repentinamente a forçar a subida, evitando a queda nas águas e aumentando sua velocidade à milionésima potência, até desaparecer em meio a um clarão de luz, como conseqüência da ruptura de algum ponto importante no tempo e no espaço.

No próximo número: Os Vingadores voltam à Terra e investigam o seqüestro de Lex Luthor

:: Notas do Autor

(*) Ver Vingadores # 01 e # 02.



 
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