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Vingadores # 10

Por Délio Freire

Arjuna, o Guerreiro — Parte II

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"Ó poderoso conquistador dos inimigos, não há fim para Minhas manifestações divinas. O que Eu falei para você é apenas um pequeno indício de Minhas opulências infinitas.

Saiba que todas as criações belas, gloriosas e esplendorosas brotam tão somente de uma centelha do Meu esplendor.

Mas qual é a necessidade, Arjuna, de todo este conhecimento detalhado? Com um só fragmento Meu, Eu penetro e suporto este universo inteiro."

Extraído do Bhagavad-Gitã

Nova York — Em um Galpão abandonado, longe de olhos curiosos.

A chuva começa a castigar fortemente o telhado do velho galpão, onde uma pequena mas competente equipe de técnicos termina seu trabalho.

— Mas, afinal, o que diabos irá fazer com isso? — pergunta um dos engenheiros para seu patrão.

— Apenas uma experiência... — Tony Stark passa a palma da mão em um dos robôs à sua frente, talhado em forma de morcego — Uma experiência encomendada por um... "amigo", que acredita essa ser a melhor oportunidade para testar seus novos brinquedos.

— Ele deve estar pagando uma fortuna... parece até que quer formar um exército...

"Na verdade, eu tenho uma teoria a esse respeito..." — pensa Stark consigo mesmo.

Em meio à noite chuvosa, um baque surdo é ouvido, como se algo fosse jogado contra o portão de entrada do galpão. A porta se abre e um morcego com quase dois metros de altura invade o local, deixando atrás de si dois homens responsáveis pela segurança do local desacordados.

— Pensei que soubesse escolher melhor seus homens, sr. Stark.

— É um prazer vê-lo mais uma vez, Batman. — o empresário estende a mão para o homem-morcego, que evita retribuir o cumprimento.

— Fiz a escolha acertada. A tecnologia que você detem é a mais apropriada para o que eu quero. — ignorando a equipe de engenheiros, Batman aproxima-se dos robôs.

— Fiz isso em nome de minha amizade com o Homem de Ferro.

— Sim... — o vigilante de Gotham dá um sorriso torto, enigmático — Acredito que você e o Homem de Ferro sejam mais do que amigos, sr. Stark. Esse enorme galpão é um belo esconderijo, uma boa base de operações. Rústico, eficiente e com um espaço amplo para meus serviços.

— Parece uma caverna...

— Mas serviu apropriadamente enquanto estivemos investigando o Projeto Arjuna — relembra Batman.

— Sim. Fico feliz que em um determinado ponto das investigações do Homem de Ferro, você e ele tenham se deparado frente a frente. Me surpreende você estar ciente da traição de Namor no mesmo momento que o ferroso.

— Talvez Arthur não saiba, mas eu tenho o hábito de conhecer bem os meus aliados... Sei o que se passa em seus lares; sei o que pensam e o que pode lhes acontecer, sr. Stark. Algo dessa ordem jamais passaria desapercebido por mim.

Ele olha firmemente para Tony Stark, querendo demonstrar maior controle da situação.

— Sei como funciona a mente de Namor. — desconversa Stark — Assim que ele vir seu Projeto Arjuna funcionando metodicamente e bem aplicado, o seu orgulho vai subir à cabeça.

— E, com ela cheia de orgulho, a deceparemos.

— Sim. Mas é preciso saber o momento exato. Agora ainda é cedo. O grupo ainda não sabe da traição de Namor. Segundo os telejornais, os Vingadores se dirigiram até Poseidonis e estão lutando lado a lado com os guerreiros de Aquaman e boa parte do exército atlante contra as tropas de Arjuna.

— A frieza atlante me impressiona.

— Vindo de você, isso deve ser um elogio a eles. — Tony não hesita em provocar — Mas eu entendo o que quer dizer; o exército de Namor finge não saber que seus irmãos estão nas fileiras de Arjuna e que ele e seu imperador são a mesma pessoa. Com os atlantes morrendo nas mãos de seus irmãos, a encenação de Namor irá durar até onde ele quiser. Sem falar nas eventuais sabotagem contra o reino de Arthur ou contra a superfície.

Tony Stark faz um sinal com a mão, para que seu aliado fantasiado espere, e começa a verificar em seu celular se o terceiro aliado não havia se comunicado.

— Nada dele.

— Lex, à sua maneira, é imprevisível. Mas se tivermos cuidado, podemos contar com ele; principalmente depois de saber das relações de Namor com seu seqüestro (*). Ele quer vingança.

— Ainda não sei se foi uma boa idéia seguir sua sugestão para nos aliarmos a ele.

— Eu não me alio a ninguém, sr. Stark. Os outros é que se aliam a mim e, lhe garanto, ele é capaz de ser tão útil quanto você, visando apenas uma troca de interesses.

— Não sei como você pode ter tanta segurança... Não teme ser descoberto por ele? Que ele saiba sua real identidade?

— Ele é um homem de visão em seus negócios; mas não se prende a detalhes ou características humanas. — Batman quase dá um meio sorriso — Só isso pra explicar como um par de óculos o tem enganado por anos e anos a fio...

— Óculos? Não entendi.

— Esqueça, sr. Stark. Mas lhe asseguro que Lex só irá nesse jogo contra Namor até onde eu ou você permitirmos. Eu e você podemos ficar seguros quanto a isso.

Poseidonis.

— Aonde está o Capitão América?

— Buddy, o jato dele devia... — com um movimento das mãos, a Feiticeira Escarlate, com Thor ao seu lado, faz com que o mecanismo de um canhão de um dos navios de Arjuna emperre antes que atinja o Homem-Animal — Mais atenção!

Optando por uma ação aérea, os três Vingadores encontram-se em semicírculo, responsáveis pelo contra-ataque da força de resistência de Poseidonis. Boa parte da frota de Arjuna é composta por embarcações que possuem um bom desempenho tanto em terra quanto em mar e seu equipamento poderia, com certa facilidade, resistir a um ataque aéreo como o atualmente iniciado pelos três meta-humanos.

Cada embarcação da frota de Arjuna, ligeiramente semelhante a um submarino alienígena, pode ser comparada a dois pratos unidos pelas bordas, com as partes côncavas voltadas para dentro. Tendo um casco duplo, o seu exterior é de uma fibra semelhante a vidro, porém mais resistente.

— Façam como lhes falei. — sugere Vanda Maximoff, a Feiticeira — Eu danificarei algumas embarcações com meus poderes.

Thor, intempestivo como nunca, joga-se como um verdadeiro míssil em direção em uma das embarcações, destruindo-a em alguns segundos. Buddy Baker, o Homem-Animal, resolve aproveitar sua habilidade de unir-se ao campo morfogenético de cada região e, em poucos segundos substitui seu poder de voar pela capacidade de ficar embaixo d'água como um peixe, mergulhando para dentro do mar.

O Homem-Animal se desvencilha de um enorme tubarão-baleia, com mais de dez metros, aproximando-se em seguida da parte dianteira da embarcação discóide. A direção e a propulsão são obtidas por meio de jatos de água que se ejetam por exaustores colocados a bombordo e a estibordo. Baker sente seus músculos ficarem mais fortes, assimilando a resistência e a força do tubarão-baleia. Com um golpe, ele destrói a base de propulsão da embarcação.

Uma explosão se segue, jogando o corpo do Homem-Animal para a superfície, completamente desacordado, boiando.

— Buddy!

A Feiticeira Escarlate assusta-se ao ver o corpo desacordado do Homem-Animal, e acaba baixando a guarda, recebendo de imediato um violento golpe em seu flanco esquerdo desferido por Ulik, o troll, que está em cima de um pequeno disco voador manipulado apenas por seus pés. Um segundo golpe, agora em seu rosto, a faz cair vertiginosamente, sem equilíbrio.

Thor, se esquivando de mísseis, mal repara na presença furtiva de Ulik, que começa a atacá-lo. O braço do deus nórdico sofre uma leve fisgada e, alguns segundos depois, o braço do Troll lhe esmurra a face.

— A fisgada que sente é apenas o início de uma severa intoxicação, velho inimigo; apenas um afago concedido pelas bruxas do pântano do reino dos trolls.

— Suas artimanhas para me enfraquecer de nada serão válidas.

O embate entre os dois parece que jamais terá fim; com extrema facilidade, Ulik movimenta-se em zigue-zague ao redor do deus do trovão, atormentando-o como se fosse a mais impertinente das moscas. Com as mãos livres e aproveitando-se do efeito entorpecedor do veneno nas veias do deus, o troll desfere golpes sucessivos no seu inimigo.

— Ah — rejubila-se Ulik — O veneno evita sua resistência!

A alguns metros dali, debaixo d'água, Visão, Viúva-Negra e Supermoça estão revestidos de uma avançada aparelhagem submarina e oferecem resistência às forças de Arjuna. A maior dificuldade para o combate é da Viúva-Negra, que estranha a demora do Capitão América e de Namor.

— Aonde está o Steve? — pergunta a Viúva-Negra.

— Aonde está o Steve?

— Ele e Namor já deveriam ter chegado. — a Supermoça desvia o trajeto de um míssil que se dirigia a Poseidonis com uma das mãos — A experiência deles é imprescindível.

— Mais do que nunca. — as palavras de Visão são uma resposta ao que vê. Por detrás das tropas submarinas de Arjuna, que se aquietam como a espera do resultado de sua nova estratégia, dois soldados gêmeos surgem. Cada um mede aproximadamente quatro metros, com uma vestimenta que relembra uniformes de gladiadores espartanos. Em suas mãos, tridentes são manipulados como se não fossem armas, mas sim extensão de seus corpos.

— Deixe que eu cuido deles! — a Supermoça toma a frente.

— Não, Linda! — Visão tenta detê-la, consciente do perigo de enfrentar o desconhecido.

Cada um dos soldados avança sem temor, posicionando-se cada um em um flanco oposto ao outro. A Supermoça não consegue reagir quando um dos guerreiros coloca um tridente embaixo de seu queixo e dispara uma descarga elétrica em alta voltagem. Jogando o peso de seu corpo, o outro irmão gêmeo dá uma cotovelada nas costas da heroína. Das costelas deste guerreiro saem dois novos pares de braços.

— Não é agradável o que a engenharia genética é capaz nos dias de hoje, Vingadores?

— Arjuna! — Visão se inquieta, indo em direção ao seu inimigo.

Enquanto os dois gêmeos dominam a Supermoça com uma demonstração de poder maior do que o esperado, Viúva-Negra e Visão confrontam-se com Arjuna. Antes que o primeiro golpe possa ser dado, o experiente guerreiro mergulha para o lado mais profundo do oceano, sumindo das vistas dos dois.

— Ele vai contra-atacar. — Visão pressente o que pode acontecer.

Com o grande impulso tomado, Arjuna retorna e golpeia a nuca da Viúva-Negra com as duas mãos fechadas. Seu corpo é segurado pelo vilão, que sente-se em seu habitat ao lutar debaixo d'água.

— Me controlei ao máximo para não quebrar o pescoço dela, Visão. Aquiete-se ou as duas mulheres irão morrer em minhas mãos.

Com os olhos fixos no sintozóide, Arjuna puxa Nathasha Romanoff pela cintura até entrega-la nas mãos de um dos irmãos gêmos; o outro segura uma Supermoça incapaz de reagir.

— Para você, eu tenho um convite. — a moça mal ouve as palavras de Arjuna — Mas sinto que palavra alguma pode dar o recado que tenho para você.

Enquanto o monstro de quase quatro metros vigia os gestos do Visão e faz um carinho ameaçador no pescoço da Viúva-Negra, seu irmão gêmeo segura a Supermoça, que é beijada por Arjuna.

Atônita, entre o cansaço e surpresa, ela reconhece o seu adversário.

— Você é...

Arjuna retira seu elmo, revelando-se em sua verdadeira identidade para os outros Vingadores: Namor, o príncipe submarino.

— É bom estar entre amigos, não é verdade?

— Vocês podem estar curiosos para saber porque foram chamados aqui esta noite. — o rosto de Namor, sentado em um trono diante das câmeras, está sombrio — Há muito esperei por esse momento em que estivéssemos frente a frente, resolvendo nossas diferenças.

Do outro lado das câmeras, a população dos Estados Unidos, do Japão e da Europa recebe a transmissão que invade seus lares.

— Por anos e anos estivemos juntos, galgando os degraus da evolução de nossas espécies e, apesar de algumas rusgas, podemos dizer que boa parte de nosso convívio foi satisfatório. Que crescemos apesar das diversidades e que toleramos cada vez mais nossas diferenças. — o atlante junta as mãos sob o queixo — E a cada dia que se passava vocês exigiam mais tolerância, cada vez mais tive que fechar meus olhos para o infindável número de afrontas e displicências com que a superfície tratou os mares e seus habitantes. Pois bem. É hora de dar um basta definitivo.

O príncipe submarino levanta-se, apoiando as mãos sobre uma mesa.

— É fatigante esperar a compreensão humana. Esperar que um dia saibam de sua responsabilidade para com o mundo que os rodeia. Se nem mesmo o chão que pisam consideram abençoado, se nem mesmo a flora e a fauna têm o respeito merecido, por que eu deveria esperar que tivessem tal sentimento pelos mares que governo?

Com uma das mãos, ele afaga seu talismã; um tridente que eleva seu pensamento a seu adorado deus Poseidon.

— Ainda que alguns de nós tenhamos sido irmãos durante a maior guerra contra o homem que conseguiu encarnar o mal deste e de todos os outros mundos (**), é de minha responsabilidade cuidar dos interesses do meu povo e seguir os mandamentos de Poseidon, por mais contraditórios e dolorosos que eles sejam. Me entrego a Poseidon para que sua vontade se manifeste em detrimento da minha...

Voltando a se sentar e apresentando um certo dom cênico que se manifesta numa pausa dramática enquanto vagarosamente pega um pouco de vinho e despeja em sua taça, enchendo-a, Namor demonstra segurança em seu discurso.

— Se seus compromissos são apenas com vocês mesmos, não seria injusto pedir a mim que agisse de forma diferente? Por isso, a partir deste dia, declaro que a vontade do povo atlante, guiada pela sabedoria de meu deus, é soberana.

Em outro cômodo do submarino onde está sendo gravada a apresentação do governante atlante, seu conselheiro, Lagos, observa cada um dos argumentos anteriormente discutidos entre eles.

— Vejamos... — Namor sorve gradativamente o líquido vermelho — Vocês podem imaginar a diversidade de doenças que o povo atlante contrai por causa de sua política ambiental relapsa? Claro, não me importaria se o raio de ação se limitasse a vocês, porém não querem apenas se matar, mas arrastar o mundo todo com vocês.

Namor coloca a taça sobre a mesa.

— Não serão mais toleradas quaisquer tipos de poluição em território marítimo a partir deste dia com a utilização de aparelhos técnicos ou qualquer outro subterfúgio. Além disso, exijo uma ação imediata do governo americano, posicionando-se a favor do tratado de Kyoto (***). Caso contrário, o presidente dos Estados Unidos será considerado inimigo número um do povo atlante e, consequentemente, deverá ser preso, julgado e condenado por seus crimes ambientais cometidos contra o planeta.

O príncipe submarino sorri.

— A Terra é nossa mãe, é um macrossistema orgânico, um superorganismo vivo ao qual devemos servir e subordinar todas nossas ações. Como crianças, precisam de um pai a guiar-lhes os passos. Eu serei esse pai, em nome de Poseidon e é em nome dele que estou reivindicando o reino de Poseidonis sob meus cuidados, e destituindo Aquaman do poder.

Com um bater de palmas, quatro soldados atlantes trazem dois prisioneiros abatidos e os jogam a seus pés. Namor segura pelos cabelos Aquaman, que está visivelmente entorpecido, e o exibe para as câmeras.

— Caiu o rei e, em poucos momentos, minhas tropas irão fazer cair seu reino. — ele o solta, deixando o corpo de Arthur Curry cair em um baque surdo e pegando outro de seus prisioneiros, também entorpecido por drogas — América, não ouse intervir... Ou serão reduzidos a pó, como seu mito.

Quando a câmera focaliza em superclose o rosto mascarado do líder dos Vingadores, a visão de um Capitão América derrotado percorre diversas redes de TV pelo mundo todo. Milhares de pessoas são tomadas de um sentimento amargo, cheio de medo e desesperança.


:: Notas do Autor

(*) Como vimos em Vingadores #05 e Vingadores #06. voltar ao texto

(**) Namor se refere a seu apoio aos Aliados contra Hitler e a tentativa de implantação do terceiro Reich, na segunda guerra mundial. voltar ao texto

(***) Assinado pelo vice-presidente Al Gore no governo passado e rejeitado pelo atual governo americano, o tratado de Kyoto se funda no princípio do "efeito-estufa". Segundo essa teoria, as emissões de anidrido carbônico e de outros gases produzidos pela civilização industrial, analogamente ao que acontece numa estufa, filtrariam as radiações solares que a Terra reflete em direção ao cosmo, provocando um superaquecimento da temperatura terrestre. Posteriormente, dois pesquisadores dinamarqueses demonstraram as ligações existentes entre a variabilidade solar e a variabilidade climática, através de uma corrente que envolve raios cósmicos, nuvens e ventos solares. Obviamente, é natural pensar que qualquer alteração climática e ecológica dessa ordem poderá atingir o mundo marinho. voltar ao texto



 
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