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Batman # 10

Por Leonardo Araújo

Cerco ao Medo
Parte I

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"Não foi uma semana fácil! Nunca é quando se trata de Gotham. Muita tensão para resolver o caso dos terroristas. Tive que pedir intervenção do Kent e isso não me agrada. Animais escapando no zoológico, fuga numa das prisões... se eu acreditasse em coincidências ruins, esse seria um exemplo!" — são os pensamentos de Bruce Wayne enquanto se banha. A imagem do mapa da cidade aberto com zonas marcadas como possíveis localizações para as bombas lhe vem à cabeça. (*)

"Há algo aqui importante... aquela palha..."

As divagações mentais invadem a mente de Bruce enquanto ele caminha para um tatame num dos cômodos da mansão. São 6:25. Agora, sentado numa posição iogue, concentra-se em sua respiração, pausada e profunda. Seus batimentos cardíacos diminuem, os pensamentos vão ficando sutis, sumindo e, lentamente, o ambiente some a sua volta. Um relaxamento de 35 minutos recupera seu corpo e mente.

Após uma série de exercícios, um novo banho e uma boa refeição matinal, Batman trabalha revendo os últimos acontecimentos. Já é fim da manhã.

"Assaltos e roubos a mansões. Algumas perto daqui. No arquivo da polícia das últimas duas semanas há cinco ocorrências desse tipo."

A seguir, passa a ler os laudos periciais e depoimentos das vítimas.

"Portas e janelas arrombadas sem qualquer cuidado. Uso de força bruta, muita força. As vítimas ficaram apavoradas. Muitos descrevem os invasores como monstros, híbridos, vampiros, lobisomens, gigantes deformados. A forma com que cofres e móveis são arrancados e destruídos exige uma força descomunal. Meta-humanos ou um alguém com exoesqueleto."

Os relatos revelam que muitas das vítimas ficaram escondidas, com tal pavor que horas após os ladrões deixarem a cena do crime, os policiais tinham dificuldade de encontrar os ocupantes das residências.

"A cidade passou por um terror dramático nestes dois dias. Somando isso àquela palha e ao pavor das vítimas, há uma marca do Espantalho neste quadro."

As horas que se seguem são divididas entre a leitura dos arquivos, a fim de obter dados que possam indicar alguma pista mais concreta, telefonemas e diretrizes às industrias Wayne.

— Seu traje noturno está pronto, patrão Bruce!

— Obrigado, Alfred. Alguma chamada importante nas últimas horas?

— Nenhuma que o senhor se prestaria a retornar.

Os ponteiros do velho relógio na parede são movidos: a peça toda se move e mostra o acesso interno à caverna. Bruce desce as escadas rapidamente.

Cerca de uma hora depois, o cavaleiro das trevas segue uma ágil sombra que se move com velocidade sobre prédios da cidade.

Um jogo de gato e rato, ou melhor, de morcego e gata.

Não se passa um minuto para que a Mulher-Gato pare em uma cobertura deserta.

— Achou que não ia percebê-lo? E então, vai ficar correndo atrás de mim a noite toda ou prefere ir direto ao assunto?

— Não abuse. — exclama Batman — O que você sabe...

— Sobre os roubos às mansões? Nada. Muito menos estou envolvida.

Selina se aproxima dele. Seu andar é sensual. Ela está iluminada suavemente pelo luar, a imagem é perfeita. Aproveitando-se da situação de semi-hipnose de seu interlocutor, encosta a cabeça em seu ombro e fala:

— Sabe, agora estou tentando me regenerar. Posso ser uma "boa moça má" e você um "bom rapaz mau"! Não há porque entrarmos em desacordo. Lutar com

você é agradável, mas não precisa ser sempre assim....

Batman se recompõe e dá alguns passos, ficando perto de uma das extremidades do prédio.

— OK, Selina. Sei que não está envolvida. O estilo é totalmente diferente do seu padrão. Mas não escutou nada? Nem sobre o repasse das mercadorias?

— Se eu souber de algo, dou um jeito de te avisar. Jura que todo este esforço atrás de mim era só para saber isso? — pergunta, num quase ronronar.

Há algo nela que definitivamente mexe com ele, nela e na amazona.

— É só. Não se envolva em problemas!

— Frio! Talvez eu não esteja aqui quando me procurar novamente. — ao dizer isso, a Mulher-Gato se lança por sobre o ombro esquerdo de Batman e mergulha no vazio. Ele a observa cruzar por sobre as ruas de Gotham antes de centrar seus pensamentos mais uma vez.

Mansão dos Warrens. Há três dias houve um furto na residência. Batman percorre os arredores da imensa mansão. Verifica marcas que possam indicar uma preparação antecipada do assalto: saídas clandestinas de sinais no sistema de segurança, grampos nos telefones, violação dos dutos de água ou esgoto, etc. Nada conclusivo pode ser levantado.

— Sr. Warren! — ecoa a voz de Batman na biblioteca onde Klaus Warren faz algumas aplicações via internet.

— Que susto... o que faz aqui?

— É sobre o furto que a mansão sofreu.

— Olha, eu já disse tudo à polícia, tudo mesmo. Não gostaria de lembrar daquilo de novo. — ele levanta cabisbaixo e retira os óculos, colocando-os no bolso do pijama.

— Mas o senhor, sua família e empregados nada sofreram, correto?

— Mas aquelas... aquelas criaturas pareciam que iam nos ver e depois matar... a qualquer momento.. olha, eu não posso ajudar mais em nada. Por favor, me deixa... — o homem percebe estar falando sozinho. Não há mais ninguém no ambiente.

Batman prossegue suas "visitas", abordando mais duas vítimas, mas nada novo é acrescido aos dados que dispõe. Resolve seguir para a delegacia aonde trabalha os agentes encarregados do caso.

A menos de dez minutos da delegacia, um apagão surpreende toda a cidade. Um blecaute geral. Um pequeno abalo sísmico segue o incidente e o tremor pode ser percebido durante cerca de oito segundos.

Menos de quatro minutos é o tempo que a escuridão generalizada demora. O serviço de fornecimento de luz é novamente normalizado, ao que tudo indica.

Ao entrar na sua sala, o detetive Garth Covey depara com a imponente figura do homem-morcego analisando a documentação sobre sua mesa. Um misto de raiva, medo e até admiração lhe invade. Tentando demonstrar naturalidade, ele fala:

— Você podia ter pedido.

Batman o olha rapidamente.

— Posso ajudar? — volta a insistir o policial.

— Vocês recolheram amostra de sangue de algumas das vítimas?

— Isso só nos ocorreu nos dois últimos casos. No primeiro os paramédicos já haviam sedado as testemunhas, no segundo a senhora estava só e tomava um caminhão de remédios. Os resultados tiveram muita reação cruzada. Inconclusivos.

— Algum objeto estranho ao local foi recolhido?

— Nada. Não tinha digitais, sangue, pedaços de tecidos, nada.

Batman se movimenta em direção a janela e, antes que saia, o policial lhe faz um pedido:

— Eu gostaria de ser informado se souber de algo, OK?

— Eu trabalho sozinho! — falando isso, salta pela janela do terceiro andar do prédio.

"E eu só compartilho informações com quem é da força policial." — Covey diz para si mesmo.

Enquanto se dirige ao Arkham, Batman repensa alguns detalhes do caso.

"Apesar de constar como preso, vou até o Arkham para ter certeza de que o Espantalho está realmente onde deveria estar. Não me surpreenderia se ele fosse o agente por trás dos últimos acontecimentos. Gotham é uma cidade que vive sob medo. Há uma clara manipulação disso: as bombas, o incidente no zoológico, a fuga dos detentos. A cidade tem sido refém de seus medos nestes últimos dias. Estes roubos têm o mesmo padrão: todos apavorados, a tal ponto de ficarem impossibilitados de agirem."

A fim de evitar maior agitação no Arkham, Batman se disfarça de segurança local e caminha pelos corredores. Segue até a central de segurança, onde observa os monitores. O professor Crane está deitado na sua cela. Nada indica que seja um boneco ou um holograma. Isso é o que as imagens internas mostram. Não satisfeito, Batman continua seu "passeio". Ao passar pela cela do Espantalho, vê o mesmo dormindo. Está tudo como deveria. Mas a situação ainda o incomoda.

Um misto de alívio e decepção aflora.

Agora, dirigindo, Batman se concentra no modus operandi. Tem tudo para ser o Espantalho, mas falta um elo.

A freqüência da policia indica que mais um dos furtos acabou de ocorrer. Imediatamente Batman se dirige ao local. Algumas gotas de chuva explodem no pára-brisa do carro. O local não é tão distante, ele chegará em poucos minutos.

A aproximação indica que a polícia também foi rápida. Luzes piscantes vermelhas e azuis se espalham nas redondezas e no interior da propriedade.

Nas sombras, como de costume, Batman faz uma vistoria pelo local. Vê os policiais recolherem as fitas do sistema de segurança. Acompanha a busca de digitais, onde os técnicos desenvolvem um meticuloso e hábil trabalho. Batman observa a governanta e o mordomo, que testemunharam parte da ação. Junto aos interruptores e aparelhos condicionadores de ar da casa, recolhe amostras. Faz o mesmo com a água. A polícia parece dar pouca atenção à cozinha, pois tudo indica que os criminosos não estiveram lá, mas Batman recolhe amostras nos pratos sujos do jantar e do líquido dos copos.

Quando os paramédicos se preparam para aplicar os sedativos na governanta, Batman se mostra, causando certo impacto nos policiais, mas quase matando a mulher de susto, apesar de ter tido o cuidado de não causar tal efeito.

— Detetive Govey, já foram retiradas amostras de sangue das testemunhas? — indaga o morcego.

— Desta vez estávamos atentos. Já recolhemos, sim. Notou algo diferente do que os relatórios revelam?

— Ainda não. Sugiro que mande uma equipe verificar se há sinais de derivação do sistema de vigilância.

— Eu mesmo farei isso.

Batman aproveita um momento de distração dos presentes e se confunde novamente com as sombras.

Ele agora observa que o arrombamento foi feito usando muita força bruta. A pessoa, ou seja lá o que for que arrombou a porta, poderia até ter passado pela parede, se fosse necessário, com alguns golpes a mais, tamanha força que deve possuir. Há metal na porta, ferro, e é possível ver parte dele moldado segundo o impacto de um chute.

Batman fica durante o depoimento das testemunhas. Quando percebe que a maleta com as amostras de sangue está em uma das viaturas policiais, a pega, retira uma pequena porção de sangue de cada amostra e a devolve sem nada ser percebido.

Terminado o trabalho de campo, o morcego se recolhe à caverna. Após alguns minutos e várias reações químicas, verifica que as amostras estavam realmente com traços de uma droga caracteristicamente potencializadora do medo, muito usada pelo professor Crane. Ele decide voltar suas atenções novamente para o Arkham. Seus olhos não o convenceram da impossibilidade de ação do Espantalho.

Os dados recentes do asilo são abertos no computador. Qualquer referência a Crane é localizada. Se fosse necessário ele verificaria mais arquivos. Mas com cerca de 45 minutos de leitura algo lhe chama a atenção. Houve uma morte no Arkham. Um interno muito pouco conhecido. Ele parecia, segundo relatos de tal ficha, desenvolver um comportamento similar a Crane.

Uma hora depois, no cemitério, Batman verifica que o corpo do suposto falecido não está no túmulo. Pela leitura da densidade do material sepultado, é bem provável que seja pedra dentro do caixão. Se pudesse se dar ao luxo de ter emoções, Batman estaria furioso. Mas sua mente precisa trabalhar e deduzir o que está acontecendo. Há possibilidade de que este paciente, chamado Oswald Mignolance, tivesse conseguido acesso aos produtos de Crane, de alguma forma. Mas os furtos estavam muito bem elaborados para um iniciante e ainda tinha o problema do suposto meta-humano... ou meta-humanos.

A próxima verificação é conduzida no antigo apartamento de Mignolance. O imóvel ainda se encontra intocado após a ausência do dono. Está vazio, como era de se esperar. No quarto, uma confirmação: Mignolance nutria uma admiração doentia por Crane. Recortes do Espantalho fazem parte da decoração. Há pastas com detalhes dos "feitos" do professor Crane. Eles tinham tipo físico parecido. Talvez tenha sido uma identificação, um espelho, a nível psicológico, desencadeado também pela similaridade física.

De volta à caverna, por mais algumas horas, Batman estuda as pastas e caderno de notas de Oswald Mignolance, em conjunto com sua ficha no Arkham. Os dois são bastante parecidos fisicamente, mas o que aproximou o fã de seu ídolo foi a identificação com o passado. Assim como Crane, Mignolance era humilhado pelos colegas, tímido e sempre desprezado. Batman novamente observa a foto do suposto morto e a imagem de Crane no asilo lhe vem à mente. Com a quantidade de luz e a distância que viu Crane, não foi possível saber positivamente quem estava na cela: Crane ou seu sósia.

Imediatamente, Batman parte novamente para o Arkham.


Continua!


:: Notas do Autor

(*) Ver Batman # 06 a # 08. voltar ao texto




 
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