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Batman # 20

Por Leonardo Araújo

Feromônios — Parte I
Instinto Selvagem

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— Bruno, quero fatos. — irrompe a voz de Batman num bar sujo do subúrbio.

Muitos fogem do local. Outros, paralisados de medo, espremem-se nos cantos e por debaixo das mesas. Conta-se nos dedos de uma mão, com sobra, aqueles que tentam aparentar calma. Bruno, um facilitador local para marginais de outras cidades, é um destes últimos.

— Qualé, morcego? Aqui...

Um soco quebra o nariz do marginal. Os outros dois que tentavam aparentar calma juntam-se ao grupo dos apavorados. Bruno, no chão, afirma:

— Poga gara! Voxê quegou beu dariz! — o vigilante o levanta no ar pela gola da camisa.

— Não toquei nas suas costelas. São doze pares. — fala, cerrando os dentes — Sobre Slade Wilson: fale-me o que sabe.

— Banco Sea S/A, agêngia 128-5, cogta 66753-4. Slade regebia por lá.

O vigilante lança sua carga em cima de uma das mesas e se dirige à porta. Todos dão passagem. Ele se sente compelido a lutar com os arruaceiros, que no momento se borram de medo. Antes de sair, como uma provocação, ele contrai as feições e afirma sem olhar pra trás:

— Dá para sentir o fedor do medo.

"Aquela luta contra os capangas treinados por Slade foi muito boa. Ainda tive Ártemis, bela Ártemis. (*) Depois Slade achou que poderia me vencer aqui. Foi bom, muito bom mostrar o quanto ele está errado." — pensa Bruce, saindo do banho carregado de vapor. Ao se olhar no espelho, fazendo a barba, arremata:

— Ele não poderia estar mais errado!

Em sua suíte, antes de se deitar, Alfred lhe traz um prato de sopa cujo vapor é visível. O fiel mordomo e amigo pergunta:

— O patrão pretende fazer outra noitada com belas jovens hoje?

Bruce se espanta com a pergunta. Alfred prossegue:

— Não estou reclamando, patrão, mas com a crescente presença da senhorita Diana, aliás, linda moça e de finíssimo trato, suponho que devo me preparar para dar evasivas à dama. — há um ar de reprovação no tom de voz.

— Alfred, não...

— Eu detestaria ter de atuar neste papel, principalmente em se tratando, agora, de uma rainha. (**) Pense bem, patrão.

Deitado, no meio da tarde, Bruce subitamente pára a análise dos relatórios da Fundação Wayne e reflete.

"Alfred tem razão. Estou exagerando. Três coisas não me saem da cabeça: as lutas, sexo... a terceira e principal é Diana. Que mulher fantástica. Talvez eu esteja displicente em relação às duas primeiras. É exagero. Preciso manter a imagem de playboy e Gotham anda muito violenta."

Assim, ele justifica para si mesmo o seu comportamento. Finalmente, adormece.

Batman está preso, um torpor toma seu corpo. Sua ação é lenta, como num filme em baixa rotação, e sua vista está embaçada. Ele nota que está preso, acorrentado. Faz força, mas nem velocidade aos seus braços ele consegue impor. A mente manda e o corpo responde com muita demora. É angustiante. Alguém se aproxima. Batman recebe um soco, depois dois, três, uma seqüência. Seu agressor ri e conversa com o que parecem ser vozes femininas. Mais de uma, talvez três. É difícil pensar agora, foram muitos golpes. Há sangue nos olhos, na boca, no nariz e o ouvindo zumbe. Ele reconhece o agressor que, agora, levanta uma imensa rocha para esmagar-lhe a cabeça: é Bruce Wayne. Nada pode ser feito. A rocha vem violentamente de encontro ao seu crânio.

— Ahhh! — Bruce acorda suando muito e se vê sentado na cama. Um pesadelo, sem dúvidas. Será um sono agitado.

Ainda naquela tarde, no escritório, Bruce invade os arquivos eletrônicos do Banco Sea S/A e procura rastrear a origem dos depósitos em favor do Slade Wilson, o Exterminador. Após algumas horas de rastreio, consultas a banco de dados e o apoio de Oráculo, verifica que os depósitos em bancos que antecederam seu confronto com os homens treinados pelo Exterminador, no qual a bela Ártemis ajudou, foram oriundos de Nova York.

A lembrança de Ártemis e seus momentos juntos o distrai, até que uma voz, a suas costas, rompe o transe.

— Olá, Bruce! Alfred foi muito gentil ao me deixar entrar.

— Diana, que prazer. — um longo beijo acontece, destes que ocorrem quando um casal passa muito tempo sem se ver — Você está linda! — ele acaricia o rosto dela.

Ela veste um traje lilás, porta a coroa de rainha das amazonas e traz um cinturão dourado adornando sua cintura.

— O que planeja fazer o resto do dia? — pergunta Diana, olhando a tela do computador por sobre o ombro de Bruce — Que trabalho está desenvolvendo agora?

— Nada que não possa fazer depois, — Bruce aproxima seus lábios da orelha esquerda dela e fala quase sussurrando — pois o resto do dia é seu. — ela sorri.

Ele não consegue mais se controlar. Beija-a com uma paixão colossal. Suas mãos percorrem todo o corpo da amazona. Em situação normal, Diana seria comedida demais para aceitar tão fortes carinhos, pois o mordomo poderia entrar no escritório, mas ela já não está em sua condição natural. Assim, ela se entrega por completo a ele, respondendo a cada desejo dele e provocando-o ainda mais. Bruce a cobre de beijos. A amazona sente que todos os desejos serão satisfeitos, principalmente ao sentir um espasmo lhe atingindo em cheio quando ele, ajoelhado entre suas pernas, beija sua virilha. A noite não terá limites.

O amanhecer do dia pega os amantes nus ainda em namoro, já na suíte principal. Ele, deitado de costas na cama. Ela sobre ele, com um cotovelo apoiado ao lado do peito esquerdo de Bruce e o outro braço sobre seu peito direito. Suas bocas estão a alguns centímetros.

— Bruce... isso foi incrível! Desejei, a noite toda, nunca mais sair daqui. — seu rosto irradia felicidade e um perfume de jasmim domina o ambiente.

— Não vejo motivos para sairmos. — ele insinua.

— E sua investigação? — ela fala, com um leve e malicioso sorriso.

— É a primeira vez que isso acontece: esqueci por completo o que eu fazia antes de você chegar. — o rosto de Diana é acariciado.

— Humm! É ótimo ouvir isso! — um sorriso brota nos lábios de Diana, sorriso que acaba em beijo.

Ele levanta calmamente, enquanto ela fica contemplando Bruce se dirigir ao computador de sua escrivaninha interligado à caverna.

— Preciso ir ao escritório Blue & Sky, em Nova York. — diz ele. Diana já está atrás dele.

— Você não vai a lugar nenhum sem mim... — agora é ela quem fala ao pé do ouvido dele. O "jogo" recomeça.

Num suntuoso escritório no centro de Nova York, que usa a razão social de uma corretora de seguros, uma soturna figura aguarda nas sombras a entrada de um agenciador de seguranças do submundo.

"H. G. Walker. Posso escutar ele se aproximar da porta. Dá ordens aos seguranças de que não quer ser perturbado. Foi ele quem contratou os homens que Ra's dispõe nesta cidade. Se Ra's estiver em NY, Walker me dirá: de uma forma ou de outra."

Walker entra no escritório e vai até sua cadeira. Ao sentar, percebe que alguém se move por trás dele, mas é tarde: sente uma pressão em seu pescoço e o mundo escurece.

Quando o empresário do submundo começa a recobrar sua consciência, percebe que a pressão sanguínea na sua cabeça está altíssima. Ao abrir os olhos, reconhece a rua do prédio de seu escritório de um ângulo único que nunca vira, 42 andares abaixo dele. Um pavor lhe toma a mente e ele vomita tudo o que jantara há pouco. Sente sua perna presa por algo. É a única coisa que o impede de fazer um "vôo" solo até a calçada lá embaixo. Antes de gritar de pavor, escuta uma voz:

— Walker, eu sei que Ra's Al Ghul contratou seus serviços na cidade. Quero que me diga onde ele está e como posso encontrá-lo. Posso conseguir esta informação vasculhando os papéis, seu celular e os computadores da sua sala, mas isso demoraria. — Batman deixa, propositalmente, o homem escorregar um pouco — Estou com muita pressa, por isso, você só tem três segundos antes de eu soltá-lo daqui. Um...

— Mas eu não... — ele reconhece Batman como seu captor ao olha pra cima — ... ele não se apresentou pessoalmente!

— Dois!

— Juro, eu não o vi! Não me solta, não!

— Três!

— Nãããããããooo...

Walker inicia uma queda em direção à calçada. Vê Batman dar as costas para o parapeito e seu pavor aumenta mais. Tudo isso antes do primeiro segundo de queda.

— Hotel NY! Centro... — a urina escapa de sua bexiga enquanto grita apavorado.

Já é o terceiro segundo de queda quando Diana, em um elegante macacão justo e inteiriço, totalmente preto, intercepta Walker no ar.

— Meu Deus! Estou salvo, estou salvo...

— Pare de gritar ou, por Gaia, juro que lhe solto. — diz a amazona — Nossa! Você está imundo! — ela retorce o nariz.

No centro da cidade, no hotel NY:

— Mestre, o sr. Walker desapareceu do escritório. — fala um homem muito alto, calvo e que mantém a cabeça baixa frente àquele a que chama de mestre.

— Desapareceu? — pergunta Ra's ao seu servo.

— Ele entrou e depois desapareceu. Não há registro de sua saída.

— Arrume nossas coisas, Ubu. Estamos de partida. Avise àqueles dois para permanecerem aqui. O detetive pode estar sondando a cidade. Mais cedo do que eu supunha. — o terrorista Ra's Al Ghul analisa a situação enquanto fecha uma maleta — Não deveria ter tirado a ladra dele ainda.

Momentos mais tarde, na cobertura do hotel NY, o casal de heróis analisa o próximo passo.

— Deixei Walker com os federais.

— Ra's contratou os seguranças de Walker para impedir visitantes comuns e aventureiros. Mas ele não é burro. Sabe que seguranças comuns não nos deteriam.

— Com certeza ele contratou agentes mais eficazes. O que acha de...

— Temos pouco tempo antes dele saber que Walker sumiu do escritório. Vamos instalar escutas...

— Tenho um plano melhor. — ela fala, com um semblante malicioso — Trouxe cartão de crédito?

Seis seguranças estão no corredor. A porta da suíte principal, em ambiente de pouca luz, apresenta dois homens parecendo guardar o recinto. Conforme a gerência previamente anunciou num contato com os hóspedes do andar, o elevador sobe e a porta se abre. Três lindas mulheres, de belos corpos em roupas muito pequenas, saem do elevador. Uma delas diz:

— Com os cumprimentos de Wilson Fisk.

Os quatro seguranças riem e gostam da idéia, mas um deles, que está à porta da suíte, anda em direção ao elevador.

Três andares abaixo, em um quarto do mesmo hotel, Bruce e Diana observam as cenas transmitidas pelas microcâmeras instaladas nos acessórios das garotas.

— É Dentes-de-Sabre. — diz Diana — Meu plano está funcionando. — ela comemora.

— O outro na porta é Metallo.

De volta ao andar reservado, Dentes-de-Sabre fala aos seguranças;

— Ei, bando de panacas. São pro chefe, não ouviram quem mandou? — Sabre desfila suas garras, arranhando as paredes — Na ausência do chefe, tomamos conta.

O outro homem na porta, em tom de deboche, pergunta:

— Só três? Não tem mais?

— Não sabíamos quantos vocês eram. Tem mais três lá embaixo.

Enquanto duas outras garotas atendem o celular no saguão do hotel e recebem ordens para subir, Diana retoca seu disfarce, agora loira, e espera o elevador com as garotas.

Quando o elevador finalmente chega, apesar da beleza indiscutível das outras cinco garotas, Diana recebe todos os olhares. As três acompanhantes que subiram iniciam um striptease e a bela loira, centro total das atenções, acompanha, junto a suas "novas amigas". Beijos lésbicos provocam os homens, que não mais conseguem se concentrar no trabalho para o qual foram pagos. Diana está sobre uma mesa, só de calcinha, e as outras garotas, nuas, a cercam.

Nesta altura, Batman já sabe que realmente não há mais ninguém no andar. Discretamente, um a um, os capangas são nocauteados. O vigilante pode notar que sua namorada está excitada com a situação: sua calcinha está molhada. Ele também se excita. As garotas, discretamente, vão se evadindo do local. Um leve perfume de jasmim está no ar.

Quando percebem, Dentes-de-Sabre e Metallo estão aparentemente a sós com a loira. Eles brincam:

— Isso, gata. — diz Sabre — Requebra gostoso pra mim.

— Percebeu que ela é loira de farmácia? Olha os pentelhinhos! — riem...

Dentes-de-Sabre percebe um cheiro diferente. Ao olhar para a porta, vê Batman.

— Gostaram do show? — Batman já parte em direção a ambos.

Os dois passam por Diana, ignorando por completo a moça. Terrível erro. Somente Dentes-de-Sabre chega ao homem-morcego. Metallo é lançado para fora do hotel por um soco de Diana. Ela vai em busca do seu alvo no céu escuro da cidade.

Batman esquiva-se do primeiro lance do mutante e estoura um frasco no chão: uma essência se espalha e irrita o sensível olfato do capanga, fazendo-o espirrar repetidas vezes.

— Filho da puta. Vou rasgar... atchoo... — um soco o atinge — suas tripas.

"Posso sentir Diana observando. Eu gosto disso... vou acabar com ele."

O vigilante se posiciona próximo ao rombo da parede que a amazona abriu na suíte por dois motivos: para ser visto derrotando o mutante e o outro motivo... o outro a seqüência mostrará. Pode-se ouvir claramente os golpes desferidos no céu da cidade entre a rainha e Metallo. Metallo, pego completamente desprevenido, não teve qualquer chance de reação.

"Está se posicionando para me atacar. Ele é rápido, não o atinjo e tenho que dar minha capa para não ter o peito rasgado. Mas o provoquei o suficiente. Ele está lutando como se eu fosse Wolverine. Ótimo!"

Dentes-de-Sabre salta sobre Batman, em um ataque furioso. O morcego agarra os pulsos do mutante, apóia um dos pés no peito de seu adversário e o impulsiona pelo rombo na parede. A fera tenta se segurar nas bordas, mas o impulso combinado do golpe de ambos faz o tijolo se soltar como se estivesse apenas levemente encaixado na construção.

— Ele vai precisar de todo seu fator de cura para levantar e sair daqui. — diz Diana, já dentro da sala, ao começar a se vestir.

Batman vasculha todo o imóvel, junto com a amazona, e constata que Ra's não está mais no prédio. Conclui que ele já saiu há algum tempo.

Agora, do outro lado da cidade, a dupla avalia os fatos. Batman comenta:

— Ra's sabia que atacaríamos. Foi um teste. Ele queria saber o quanto eu estava preparado.

Diana percebe o celular de Bruce tocando.

— Por favor, atenda. — ele diz.

— Alô! — uma voz sintetizada cumprimenta do outro lado: é Oráculo.

— Ela deve informar sobre uma busca no submundo de Gotham. Novidades? — pergunta Bruce.

— Só uma: a Mulher-Gato desapareceu! — responde Diana ainda escutando Oráculo.

— Selina? Não vejo relação alguma. — ele está intrigado.

— Senti um ar de preocupação. — diz a rainha.

Ele se aproxima dela e a toca. Bruce fala, novamente, junto ao ouvido da amazona.

— Vi como estava gostando do show lá no hotel. — fala, provocando-a.

— Pensava em você, via as garotas se beijando, — faz caras e bocas — lembrei de sua excitação quando contratamos as garotas, você as escolhendo pessoalmente, e o perigo... aquilo tudo me deixou realmente excitada.

Ela toma o rosto dele entre as mãos e o beija.

— Mas achou que eu não percebi sua exibição particular na luta com o Dentes-de-Sabre. Queria provar quem era o "animal" mais selvagem dali?

— Se restou alguma dúvida, provo agora!

Após algumas horas, ambos começam a se vestir, depois de terem tentado isso três outras vezes.

— Realmente gostei de derrubar Dentes-de-Sabre. Me deu prazer, admito! — ele fala, se encarando no espelho.

— Eu te dou prazer! — ela o beija.

— E muito.

— Não vamos recomeçar novamente, Bruce. Tenho compromissos urgentes para os quais já estou atrasada. — ela o olha fixamente.

A rainha de Themyscira parte voando. Ele a contempla até a perder de vista.

Em algum lugar longe dali, Ra's comenta com Ubu:

— Providencie para que a ladra seja achada pelo detetive. Antes, impregne-a com mais de nosso feromônio. O detetive está ficando descuidado, impulsivo.

— Sim, mestre.

— Pague o restante que devemos a Hera por ceder seu feromônio. Com a alteração que fizemos nele e o catalisador que compramos do Espantalho, cada vez que o detetive se encontra com a Mulher-Gato, mais ele se impregna com a substância.

Uma sombra multiforme aparece num monitor e pergunta:

— Parece que está afetando a parceira dele. Vi algumas cenas aqui. Isso tá quente!

— Sim. A mulher também sente os efeitos. Em breve eles estarão com um comportamento tão apaixonado, ou tão animal, que o detetive sequer terá tempo de analisar os crimes das ruas de sua cidade. — desliga o monitor.

— Ele agiu conforme o senhor previu, mestre. — diz Ubu.

— E será assim daqui pra frente: desaparece o vigilante, assume o playboy. — afirma Ra's — O maior inimigo de Batman é Bruce Wayne. Eu sei e, em breve, ele saberá também.

— Como assim, mestre?

— Vi Bruce Wayne destruir Batman quando caçava Qayin. (***) — fala, com o olhar perdido no espaço, como quem busca os detalhes na memória — Usarei isso de forma ainda mais eficaz.

Dois dias se passam. Há muito movimento em um velho armazém perto do porto. Há informações, oriundas das ruas, de que estão usando um destes depósitos antigos para armazenamento clandestino de armas. As fontes foram obtidas quando o detetive buscava informes dobre Slade e Ra's. Batman está na vigília há quase três horas. Decide, por fim, agir.

Sua súbita aparição, rompendo a clarabóia no teto, põe em fuga a metade dos marginais. Dos doze que ficaram, cinco estão congelados pelo medo, dois foram abatidos na queda, mas os outros cinco atiram para todo lado.

Ele gargalharia, se isso não fosse arranhar sua imagem, enquanto derruba os marginais que tentam, desesperadamente, se defender. Podem ser ouvidos rosnados. Golpes quebram dentes, costelas, joelhos e braços, enquanto gritos de dor ecoam no ambiente. Por fim, só resta ele de pé no galpão.

O vigilante dá uma rápida olhada ao redor, se concentra nos detalhes e passa a escutar gemidos abafados acompanhados de pequenas pancadas por trás de uma pilha de caixas. Resolve se aproximar, o fazendo de forma pouco cautelosa e quase incauta. No último instante, opta por saltar por sobre as caixas: assim, no caso de algum perigo, terá a surpresa, novamente, ao seu lado.

Inesperadamente, nenhum marginal o aguarda, nenhuma armadilha tenta prendê-lo. Apenas uma mulher, de silhueta sensacional e rosto coberto por um saco, atada com esparadrapos e presa sentada em uma cadeira. Ele se aproxima. Conhece aquela forma e cheiro: é a Mulher-Gato. O detetive remove o capuz e confirma o que seus instintos já afirmavam. Ele pergunta:

— Quem fez isso com você?

— Não sei... está difícil pensar. — ela fala, com feições perdidas, quase abobada,

Batman faz uma rápida inspeção visual. Enquanto a liberta, constata que Selina não parece estar ferida. Mas ela foi drogada, está com dificuldades de se manter acordada. Assim, o homem-morcego a pega nos braços e sai com a bela moça no colo. Ele sente o perfume nos cabelos dela.

À medida que o tempo passa com ela ao seu lado, no deslocamento do depósito até a caverna, mais excitado ele fica. É difícil manter a concentração no volante durante o trajeto. Quase impossível é deixá-la só na cama e fazer um teste rápido para verificar a que tipo de substância foi exposta. Difícil também é revistá-la, afinal ela pode ter rastreadores ou escutas, sem se aproveitar da situação. Os testes com o sangue são primários: ele os para assim que termina a análise das roupas dela e sente o cheiro de éter na gola e junto do pescoço de sua hóspede.

Passam-se quase 30 minutos na caverna antes que Selina desperte.

— Então é aqui que você traz suas garotas? Meio dark, mas gosto. — diz ela, com um ar sonolento.

— Do que se lembra? — ele pergunta, ainda de costas pra ela.

— De sair do meu apartamento. Tudo fica escuro. Depois, lembro de estar amarrada, com os olhos cobertos e uma briga perto de onde eu estava. Tentei chamar socorro. Ai você apareceu. — ela manda um beijo no ar — Tem um chuveiro por aqui?

Ele aponta a direção e ela caminha para o local.

— Não saia daqui, bonitão.

Os feromônios saturam o ambiente, deixando ambos excitados. Agora ele não mais desprega seu olhar dela. Mas a voz de Alfred, no intercomunicador, chama sua atenção para uma importante presença:

Patrão, o senhor terá nova companhia na caverna.

É Diana, trajada com túnica grega vermelha, quem desce a escada de acesso da mansão para a caverna. Ela percebe que Batman tem companhia. Assim, Diana fala, num tom baixo para não ser ouvida:

— Senti saudades. — dando-lhe um beijo rápido — Quem está aqui?

— Achei Selina. Ela estava presa e drogada. Ainda não tenho pistas sobre quem ou porque fizeram isso.

— Claro que já sabe sobre a busca por ela. Vai levá-la para Washington?

— Busca? — pergunta ele, surpreso.

— Você não sabe? O que andou fazendo nas últimas 24 horas? — indaga Diana, franzindo a testa — Logo você. As agências secretas internacionais estão em alerta. O FBI tem um vídeo mostrando a Mulher-Gato roubando códigos secretos, em Washington, de lançamento de mísseis nucleares, cartões de acesso aos silos de mísseis e o posicionamento dos silos em todo o globo. Parece que tudo ocorreu há umas cinco ou seis horas.

— Impossível. — ele balança levemente a cabeça — Nas últimas quatro horas, no mínimo, ela estava presa no armazém que eu vigiava e aqui. Não é possível realizar o roubo em Washington, não há tempo útil.

— Então alguém queria incriminá-la. E foi bom nisso, muito bom.

Selina sai do banheiro enrolada apenas em uma toalha. Ela, provocativamente, se apresenta:

— Acho que nunca fomos apresentadas. — Selina estende as mão para Diana, fitando-a nos olhos — Selina Kyle, a Mulher-Gato.

Diana a cumprimenta com certa timidez e surpresa pela iniciativa. A visitante continua:

— Realmente os comentários sobre sua beleza não eram nada exagerados.

Com o feromônio afetando os três, Selina deixa a tolha cair. Com calma e muita sensualidade, começa a se vestir. Diana fica surpresa, seu sangue ferve e ela se espanta ao perceber que está mais excitada do que enciumada.

— Selina, não há necessidade disso. — as palavras saem de boca do Batman, mas divergem completamente dos seus pensamentos e sentimentos.

— Olha, podem abrir o jogo, Bruce.

Diana e Bruce se entreolham com certa surpresa. Ele se recompõe.

— Do que me chamou?

— Bruce Wayne. — fala Selina com uma voz ronronante e sorriso nos lábios brilhantes — Não é novidade nenhuma que eu tenho uma queda por você. — suspira a gata — Te acho um tesão. — ela morde o lábio inferior.

Bruce apenas a fita de esguelha. Ela continua:

— Realmente pensa que consegue disfarçar seu andar? Sua maneira de postar-se e seu queixo? Que alguma mulher que se interessasse por você e tenha visto o Batman várias vezes não ia se tocar? Sem chance, querido! A sua bunda é a mesma de Bruce.

Selina pisca levemente o olhar, coloca as mãos na cintura e balança os cabelos.

Diana ri da situação e de Bruce, ela lembra que muitas vezes ele já criticou o disfarce de Clark, mas a Mulher-Gato pareceu bem interessada em perceber o andar do homem-morcego.

Diana se recosta em Bruce, pegando suas mão e fazendo-o abraçá-la. O ambiente é provocante. A amazona quer deixar claro que há mais do que uma amizade ou flerte entre ambos. Ela força seu quadril sobre a pélvis dele.

— Calma, majestade. — sorri a Mulher-Gato, com um dos dedos no lábio inferior — Só quero uma casquinha. Não seja egoísta. — a gata continua a sorrir enquanto veste suas meias sensualmente.

Diana, ainda recostada em Bruce, sabe que ele faz um imenso esforço para se controlar, pois sua excitação pode ser claramente sentida por ela. A substância química sintetizada por Ra's faz um devastador efeito.

— Prometo pensar no seu caso! — exclama Diana. Batman sorri e ela o beija. Ele interrompe o carinho ao ver a ladra se preparar para partir. Então, Bruce interfere:

— Onde pensa que vai?

— Embora. — Selina acena com a mão. A amazona diz:

— Você é procurada.

— Qual é a novidade nisso?

— Procurada internacionalmente. — afirma Bruce, ao digitar alguns comandos em um micro e estabelecer um link seguro com os computadores do FBI. A filmagem do roubo é vista — Segundo estes arquivos, você roubou informações militares altamente sigilosas. Há um alerta da Interpol para sua captura.

— Quem foi que armou pra mim? — diz Selina, com certa raiva, enquanto se concentra na sua sósia na tela.

— Não sabemos, mas vamos descobrir. — ela se aproxima de Selina — Mas você não pode se expor. Bruce disse que não foi você. Se ele diz, é porque realmente não foi.

— Ainda não visualizo como, mas suspeito que você está ligada ao caso que investigamos: Ra's Al Ghul.

— Ra's, aquele porco. Ele troca mulheres por camelos. — ela olha pra dupla e continua, agora mais calma — Obrigada pelo voto de confiança. — ficando entre o casal, Selina afirma, com certo deboche — Eu fico bem quietinha em um hotel por aí. — ela roda o dedo indicador direito no ar.

— Fique aqui, na mansão. Nunca irão lhe procurar aqui. Assim, se você lembrar de alguma coisa, você nos conta. Se este caso está ligado a Ra's, temos de descobrir. — sugere a rainha.

Bruce aprova a idéia, mas controla, parcialmente, sua súbita alegria.

— Tem certeza que não vou atrapalhar nada? — ela exibe um malicioso sorriso.

— É só provisório. — pisca a amazona.

— Diana está certa. Você fica até podermos inocentá-la e estabelecermos uma conexão.

Conexão? — Selina ri — De que tipo?


Na próxima edição: o feromônio dirige, cada vez mais, as ações de Batman e Diana. Super-Homem busca a Mulher-Gato. Uma estranha Lois Lane ataca Batman. O mais perigoso inimigo de Batman aparece: Bruce Wayne.


:: Notas do Autor

Agradecimentos a JB Uchôa pelas sugestões nos diálogos de Diana e Selina, ao se encontrarem pela primeira vez na caverna.

(*) Ver Batman # 16, # 17 e # 18. voltar ao texto

(**) Essa história se passa após a coroação de Diana como rainha de Themyscira, como visto em Mulher-Maravilha # 32 a # 34. voltar ao texto

(***) Na graphic novel "Batman: o Filho do Demônio", publicada no Brasil nos anos 80 pela editora Abril. voltar ao texto




 
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