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Flash # 09

Por Délio Freire

O Alquimista Está Chegando (*)

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Tóquio

"O monstro espacial estende seus tentáculos sobre mim, um Wally West atônito em ser capturado por aquela criatura que mais parece uma gosma gigante disforme. Eu olho ao meu redor, alguns habitantes de Keystone City paralisados em decorrência da investida do alienígena. Neste momento, resta a mim ter apenas como aliado um homem que me acostumei a ver, desde os tempos de Kid Flash, como meu inimigo. Albert Desmond, o Dr. Alquimia."

"Sentido a gosma pegajosa do monstro aderir ao meu uniforme escarlate de Flash, sou jogado violentamente contra o chão uma vez; o monstro não me solta, deve querer brincar comigo até me nocautear. Vibrando minhas moléculas para ficar intangível, consigo me desprender da pseudo-mão do monstro, indo imediatamente para o lado do Dr. Alquimia."

— Sua investida e a minha não deram certo, doutor.

— Juntemos nossas forças em um ataque conjunto, então, rapaz. Ou fazemos isso ou a Terra e seus habitantes ficarão imóveis para todo o sempre.

— O que eu devo...

— Prepare-se, Flash! Prepare-se para a Surrealquimia!

"Em poucos instantes, o mago retira duas pedras de sua algibeira, pedras que irradiam uma luz intensa que começa a se alastrar inicialmente para os braços, rodeando todo seu corpo, como uma aura mística que demonstra um poder maior do que eu podia suspeitar. Tal energia circula ao redor do corpo do homem, transformando-o em um pentagrama vivo circunscrevendo o círculo dourado de energia."

— Aceite a comunhão da minha paz interna com a sua velocidade divina para, juntos, destruirmos esse monstro. Aceite!

"O Dr. Alquimia estica os braços, transformando-os em um canal de energia e direcionando-os para mim. Inicialmente me assusto, mas acabo aceitando aquela energia misteriosa dominar o meu corpo."

— Ataque, Flash!

Paris, no mesmo dia, algumas horas antes

— Se não tomar a ofensiva, nunca vai recuperar o amor de sua ex-namorada.

"Você não tem idéia do que é dialogar com um deus. Ele, à minha frente, displicentemente dá conselhos sobre minha vida amorosa e mexe o café com uma colher de chá. Por mais que queira parecer natural, Hermes é petulante. Seus cabelos encaracolados bem tratados, o terno bem cortado e a pasta sobre a mesa o fariam tranqüilamente ser confundido com um alto executivo grego. Desde que me posicionei contra a intenção de Hermes em me transformar em uma divindade (**), jamais poderia imaginá-lo como um confidente, o que realmente ele está se tornando, já que é a terceira vez que nos encontramos para tomar um café em Paris e jogar conversa fora."

— Não estou tão certo disso.

— Sempre fugindo do que realmente deseja, não é verdade? — "Hermes morde uma bisnaga."

— Olha, minha decisão quanto à sua proposta é definitiva... mal consigo, pra falar a verdade, me acostumar com minhas funções como Flash. Não seria me tornando uma espécie de semideus que a barra iria aliviar.

— Não está mais aqui quem falou... — "Hermes levanta uma das mãos, solenemente" — Mas talvez esteja na hora de você realmente se posicionar, você não é mais o Kid Flash, o garotinho que corria ao lado do seu tio. Por que não conversar com Linda? Que mal isso causaria, um relacionamento de tanto tempo merece uma conversa esclarecedora; mesmo que cada um resolva ficar em seu próprio canto.

— Não sei... não entendi como tudo acabou indo para essa direção, como eu e Linda rompemos.

— Pois então, Wally. É o que eu digo; tome a ofensiva e resolva a situação. Você é capaz disso.

"Eu olho para ele, ainda me questionando o porque do interesse do deus em cultivar uma amizade."

— Pode perguntar, Wally — "Hermes sorri."

— É telepata agora?

— Não. Mas há milhares de anos observo a Terra, seria vergonhoso não reconhecer a expressão de dúvida no rosto humano quando ela surge. Mas é natural esse receio de enxergar o que você realmente é; talvez a sua negativa ao meu pedido só prove que você já é o guardião do tempo. Ou pensa que eu daria tais atributos à alguém com o ego suficiente para se imaginar predisposto para a tarefa?

— Cara, você está maluco...

— Por quê? Não se subestime, Wally West. Você faz parte de uma linhagem especial, é um ícone dos tempos modernos. Veja seu tio, por exemplo, viveu administrando o fluxo de entrada e saída de portais de diversos mundos alienígenas, sempre enfrentando o monstro da vez, imaginários ou extraterrenos.

— Mas ele pagou um preço caro por isso, Hermes.

— Sim. — "os olhos do deus parecem brilhar" — Ele morreu numa tentativa de manter esse e outros mundos protegidos, administrando portais entre vários planetas. Nunca imaginou que você, como Kid Flash, sempre esteve se preparando para assumir o manto dos Flash?

— Impossível! — "num sobressalto, me agito na cadeira e quase derrubo o café" — O raio me atingiu por um acaso!

— Bom, dizem que um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar. Ao menos não sem uma razão para isso. — "Hermes sorve um pouco mais do café esfumaçante" — Quem melhor para acompanhar nossa época senão você? Uma época repleta de viagens no ciberespaço, com a comunicação como moeda principal, uma época que precisa de um ícone, de um deus. Você, Wally West, é esse deus pop da velocidade, querendo ou não. Talvez não saiba, mas você também atende por muito nomes, Wally. Você sou eu! Você foi minha contraparte romana Mercúrio; no Egito antigo, lhe conheceram como Thot, o senhor do tempo; no calor do deserto americano, os apaches lhe chamavam de Coiote; salvando vidas nas trincheiras da segunda guerra, seu nome era Joel Ciclone; no frio coração dos que habitavam os países nórdicos, foi temido como Loki e nas alegres danças iorubás você atendia por Exu!

"Hermes levanta-se. Eu também."

— Já vai? — "pergunto, tentando disfarçar o incômodo que o deus me traz."

— Sim. Tenho meus compromissos. Mas não esquente a cabeça com isso. No fundo, tudo isso talvez não passe de uma grande bobagem minha.

"Apertamos as mãos, sabedores que uma nova conversa ocorreria em outra oportunidade. Quando Hermes pega sua mala na mesa, lembra-se de mais uma coisa."

— Se quiser seguir um conselho meu, que siga apenas um.

— E qual seria?

— Fale com ela, Wally. Fale com ela.

Keystone City

"No apartamento da jornalista Linda Park, um homem bate à porta, na esperança de conseguir alguns minutos de sua atenção. Esse homem sou eu, Wally West, mostrando toda minha insistência diante de Linda que, sem saber o que fazer, resolve abrir a porta para me receber."

— Por um momento, achei realmente que não estivesse em casa...

— Como vê, estou sim. — "Linda deixa a porta entreaberta, sem convidar-me para entrar e vira-se, voltando às tarefas que fazia" — Poderia ao menos ter tocado a campainha...

— Posso entrar? — "sim, eu sou cara de pau. Ela não seria mal educada a ponto de recusar."

— Tenho outra alternativa, Wally? — "a voz vem do quarto dela, ela saiu propositadamente do meu raio de visão."

— Achei que poderíamos conversar.

"Como um relâmpago, movimento-me da porta do apartamento até o quarto dela."

— Eu disse que...

— Eu ouvi, Wally. Mas, sinceramente, não temos mais nada a dizer um ao outro. — "ela olha diretamente para mim" — Acabou, está bem? Aliás, pelo tempo que passou sem me procurar até se decidir a conversar, imaginei que já tivesse compreendido isso.

— Desculpe. — "ponho a mão na nuca, sempre faço isso quando fico ligeiramente sem jeito" — Quando você... desapareceu... fiquei sem ação.

— Não. Não acredito que tenha ficado sem ação...

"O diálogo entre nós prossegue, mostrando o quanto minha ex-namorada está firme na idéia de não voltar para mim; em contrapartida, cá estou, fazendo o que sei fazer melhor: ser insistentemente chato."

— Precisei dar um novo rumo para minha vida. — "ela diz" — Acredita que tenho ambições maiores do que ser a "senhora Flash"?

— Por favor, Linda. Terminar assim não faz sentido.

— Viver com um meta-humano também não faz sentido... ou acha que são todas as moças que suportariam isso? Você precisa de alguém que lhe de suporte, que fique do seu lado para auxiliá-lo a encarar seus poderes e seu cotidiano... você precisa mesmo dessa pessoa, mas não será eu. Aliás, a maioria nem imagina o que seja esse tipo de vida... a existência do risco...

— De me perder? — "eu sorrio" — Ora, aconteceria o mesmo se você namorasse um policial.

— É diferente.

— Como sabe? Você nunca namorou um policial para saber.

"A campainha toca."

"Linda corre até a porta, abrindo-a e sorrindo para um homem negro, aparentando extrema força e agilidade, que a abraça carinhosamente. Seus cabelos rastafári balançam, contrastando com o terno alinhado e de corte perfeito. Quando segura Linda, abre um sorriso enorme, branco, deixando cair os fones de ouvido de seu walkman no pescoço. Consigo ouvir bem longe um som dub de Mad Professor, que eu viria a saber ser seu estilo de música preferido."

— Este é Simpson Smith, o novo chefe da UCE de Central City. (***) — "Linda Park segura a mão de Smith fortemente" — E é meu novo namorado.

"Bem, eis algumas vantagens em ser o homem mais rápido do mundo. Você corre, corre e corre, sem nem quer saber para onde. É isso o que eu faço no momento, rezando para que apareça algum supervilão fantasiado para extravasar todas as minhas emoções."

"No meio do caminho, ouço uma notícia que vem da TV de um bar e que me obriga a parar abruptamente."

— É como se o gorila Grodd tivesse deixado de existir por alguns meses. — "afirma o apresentador" — Sua última imagem pública ao ser preso após sua investida, ao lado da Legião do Mal, contra a Liga da Justiça, (****) é a de um ser descontrolado e bestial caído e dominado graças à força da telepatia de Ajax.

"Tudo bem que eu queria um inimigo para descarregar a tensão... Mas não ele! A TV exibe a imagem de Grodd caído e dominado, sendo erguido por um guindaste e colocado em uma camburão para superseres da prisão de segurança máxima Iron Heights."

"Em seguida, o locutor fala sobre as imagens de um Grodd liberto, acompanhado de seu advogado e, pela primeira vez, com um semblante mais controlado."

— Era só o que me faltava... Grodd usando de truques jurídicos para sair da cadeia.

"Pois é, enquanto ainda tento assimilar a novidade a respeito do namoro entre Linda e Simpson Smith, eu, o dinâmico e corajoso Flash, continuo minha patrulha em Keystone City... droga... nessas horas, a última coisa que eu gostaria era de usar esse uniforme. Não falta acontecer mais nada..."

"Para aprender a ficar quieto, ouço um estalo, seguido de um tremor de terra que me tira subitamente de rumo e faz meu corpo tremer e perder o equilíbrio."

"Ao meu redor, as pessoas estão petrificadas, totalmente paralisadas transformadas em estátuas. Corro mais alguns quilômetros e o cenário estranho com pessoas petrificadas se perpetua por um longo caminho. Enquanto corro, me deparo com aquela que pode ser a causadora de tudo. Uma nave espacial, com as turbinas esfumaçando, entrou dentro de uma residência de Keystone City." "Adentro à nave com mais cuidado que tenho habitualmente, sigo andando por sua pequena estrutura até chegar àquilo que aparenta ser a cabine de pilotos, onde dois alienígenas desmaiados estão com seus corpos caídos sobre o painel de controle. Um está morto e o outro à beira da morte. Esse último, com certo esforço, aciona um pequeno aparelho em seu uniforme que o permite se comunicar em outras línguas."

— Saudações, terráqueo. Não tenho muito tempo... peço apenas que me ouça e que seu deus tenha sido justo o suficiente para que você seja o campeão necessário para a tarefa em que, lamentavelmente, eu e meu amigo fracassamos.

— Do que você está falando?

— Pegue aquela... lâmpada.

"Imediatamente a pego e retorno a com ela para o alienígenas."

— Estamos à caça de um monstro... um monstro cuja aura emana ondas... ondas que podem manter boa parte dos habitantes aprisionados para sempre. Busque-o, coloque-o de volta em seu lugar... e livrará seu planeta de um terrível destino.

— Mas como eu...

"Em instantes, antes que possa me retirar qualquer dúvida, o alienígena morre, deixando cair aquilo que agora é a única peça para salvar meu povo. A lâmpada."

"Que dia louco! Enquanto estou prestes a quase iniciar a corrida em busca do tal monstro que originou a tudo isso, me deparo com aquele que virá a ser um inesperado aliado antes que saia da nave: Albert Desmond, o Dr. Alquimia."

— Pelo visto, não fui o único a ficar incólume. — "afirma o Doutor."

Tóquio

"Em meio à necessidade de atacar um monstro que paralisa todo o nosso planeta, resta apenas agirmos em conjunto. Enquanto procuro a localidade exata desse ser que, com certeza, não deve ser algo que passe desapercebido por mim, o bom doutor fica parado no local em que nos encontramos inicialmente até que eu dê o sinal. Não me pergunte como, mas em poucos instantes ele se materializa justamente onde o alienígena gosmento se encontra. É assim em Tóquio, local em que encontro o monstro e, após uns 3 ou 5 minutos, o Dr. Alquimia se materializa ao meu lado."

— Que ironia sermos alguns dos que podem enfrentar esse monstro.

— Alguns? Acha que existem mais?

— Ah, com certeza. Não fomos atingidos pela aura desse monstro justamente por possuirmos também uma aura específica. Não me surpreenderia se mais alguns também estivessem libertos do transe que paralisou a grande maioria.

— OK. Mas o que vamos fazer? Ele ainda não tem consciência de nossa presença.

— Nós? Acredite: cuidarei desse monstro sozinho.

"O fato de trabalhar em dupla com alguém que sempre se caracterizou pela facilidade em mudar de lado, tornando-se ora um bom amigo de Barry Allen, ora um inimigo mortal, faz com que não me surpreenda com seu ímpeto em partir para o ataque."

"A coisa toda é frustrante e quase não seguro o riso diante dele. Pomposo, parece querer provar que não precisa de minha ajuda. Irrompe calmamente e fica diante do monstro que, diga-se de passagem, é tão perigoso ou tem gestos tão bruscos como o de uma criança; afinal, perigosa mesmo é sua aura."

"E, para detê-la, o Dr. Alquimia fica em profundo silêncio diante da coisa, com um ar que me parece ligeiramente sonolento, fruto da auto-sugestão que se inicia. Senta-se ao chão, cruzando cuidadosamente as pernas. E o bicho ali, de frente para ele, numa paciência bovina, parece não dar muita bola para meu aliado que, momentos depois, diria-me que aplicara todos os exercícios necessários para o silêncio espiritual, deixando a quietude do corpo liberar energias mágicas que poderiam aprisionar o monstro."

"O fracasso é total. A energia realmente é liberada, circulando ao redor do ser alienígena, mas volta na forma de uma descarga elétrica que joga o Dr. Alquimia a alguns metros de distância."

— Não pode ser... — "enquanto retira a poeira da capa, refeito do susto, o alquimista demonstra surpresa com a resistência do adversário" — Não consigo conceber como pôde ter dado errado.

— O que quer que tenha tentado, não foi o suficiente para aprisioná-lo nessa lâmpada. — "olho para o recipiente com certa desconfiança" — Mas não resta muito tempo. Terei que fazê-lo sozinho.

— Cuidado! — "grita o Dr. Alquimia."

Tóquio — de volta ao presente

"O Dr. Alquimia estica os braços, transformando-os em um canal de energia e direcionando-os para mim, que, inicialmente, me assusto, mas acabo aceitando aquela energia misteriosa dominar o meu corpo."

— Ataque, Flash!

"A sensação é diferente, única, como se carregasse ao mesmo tempo as possibilidades de ser extremamente rápido ou extremamente calmo. A sensibilidade de como o tempo age sobre o meu corpo me permite adotar os gestos exatos, golpes e esquivas necessárias para aprisionar o monstro."

"Me ponho diante dele e a sensação é semelhante à de tentar pegar um chiclete gigante, disforme e maleável; mas minhas mãos, talvez orientadas pela energia do Dr. Alquimia, conseguem 'esculpir' o monstro, molda-lo até o tamanho necessário. Sua resistência, anteriormente maior, cai, e finalmente o coloco na lâmpada. Aprisionado, sua aura perde o efeito e os habitantes da Terra não mais estão paralisados."

"Olho para meu antigo adversário com simpatia. Não trocamos palavras de despedida, mas sentimos o movimento e os sons da Terra voltando ao seu curso normal, compartilhamos uma certa alegria em ver nosso objetivo alcançado."

"Eu sou Wally West. E ainda há muito por fazer." (*****)


No próximo número: Central City está em festa. Com a data do aniversário de nascimento do falecido Barry Allen chegando, todos se preparam para prestigiar seu maior herói da melhor forma possível. Todos. Exceto o Capitão Frio e Onda Térmica, que se aliam em um plano para desmoralizar por completo o nome do segundo Flash.


:: Notas do Autor

(*) Agora você encontra uma pequena trilha sonora usada em cada edição para você baixar em seu programa de buscas preferido. Confira as músicas e as bandas:

"Absurd" — Fluke
"Doctor?" — Orbital
"Night in Cairo" — Mad Professor
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(**) Como vimos na edição anterior. voltar ao texto

(***) Simpson Smith tomou posse do cargo de chefe do cargo da UCE de Central City em Flash # 07. E você pode conferir a música que Smith ouve no walkman na trilha sonora desta edição. voltar ao texto

(****) Como vimos em Liga da Justiça # 08. voltar ao texto

(*****) Como podem perceber, apesar de haver uma distância entre o último e o atual número, nada do que aconteceu nas edições anteriores foi desconsiderado, fazendo com que essa e as próximas edições dêem continuidade as aventuras do Flash no Hyperfan no ponto exato em que haviam parado. Se quiser mandar comentários sobre a volta do Flash e sugestões para o título, basta preencher o formulário abaixo. voltar ao texto



 
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