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Mulher-Maravilha # 24

Por JB Uchôa

Palestina

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Embaixada de Themiscyra, Nova York. Diana termina de mandar alguns e-mails quando sente uma leve brisa vinda da janela.

— Kal... — a Mulher-Maravilha se vira e recebe o amigo com um sorriso — Que bom receber sua visita!

— Espero que seja bom mesmo, Diana. Só vim porque fiquei preocupado com seu discurso que revisei.

— Já sei, estou recebendo a visita do Super-Homem. — Diana suspira — Não precisa dessa distância entre a gente. A embaixadora nunca será maior do que sua amiga. Sente-se e conversaremos. — Clark sorri desconcertado. É em momentos como esse em que se percebe nitidamente o caipira de Pequenópolis na cidade grande.

— Você tem provas do ataque terrorista? — pergunta, enquanto puxa a poltrona em frente à mesa da embaixadora.

— Eu parei o avião, lembra? — a Mulher-Maravilha recosta em sua cadeira — É uma entrevista?

— Assim como você me disse que a embaixadora nunca será maior que minha amiga, sigo o mesmo exemplo com o repórter. — Super-Homem arqueia a sobrancelha esquerda e pondera — Mas entendo que nossas posições civis fiquem desconfortáveis.

— Não, Kal, eu não tenho provas concretas de que o líder de um país ou uma facção religiosa comandou o ataque. — Diana abaixa a cabeça por instantes e volta a encarar o homem de aço.

— Você não acha que seu discurso pode inflamar alguns dirigentes da ONU? Podem se sentir ofendidos, você sabe que a coisa mais frágil e volátil que existe no mundo é o ego. Sobretudo daqueles que têm o poder nas mãos.

— Assim como a gente?

— Sim, Diana, até mesmo de supertipos como nós.

— Entendo, Kal. E aceito seus argumentos, mas isso não quer dizer que eu concorde! A cultura desse povo trata as mulheres com menos respeito do que animais, isso não está certo! Precisamos mudar alguma coisa! — Diana vira a tela do computador e mostra cenas de apedrejamento e chicotadas em praça pública contra mulheres — É isso que eu questiono se está certo, Kal-El!

— Diana, será que elas querem mudar? Muitas aceitam a punição como divina, você questionaria uma decisão direta dos deuses? Será que você aceitaria argumentos se algum embaixador levantasse em questão o fato de não existirem homens na Ilha Paraíso?

— Isso é um absurdo! — Diana bate a mão com firmeza na mesa — Homem nenhum foi tratado como um animal na Ilha!

— Eu sei disso, Diana, mas será que o mundo sabe? — Super-Homem se levanta da cadeira e sorri — Preciso ir agora, um furacão no meio-oeste. Espero conversar com você novamente antes do seu discurso.

— Não prefere conversar comigo e com Bruce? — Diana sorri, com ar de deboche.

— A ironia não cai bem nas amazonas, mas vou levar como uma piada. — o homem de aço caminha para a janela — Você sabe que Bruce tem uma visão muito unilateral de certos assuntos.

— Assim como eu? — a amazona levanta-se com delicadeza e abre a janela pro companheiro de equipe. Super-Homem sorri e balança a cabeça negativamente — Acho que por isso a gente se entende tão bem.

— Todos nós temos visões unilaterais do que fere nosso ego.

— Entendi, Kal. Espere pra tomar um café grego comigo e discutirmos o assunto.

— Adoçado com o mais doce mel de Themyscira. Será perfeito para melhorar os ânimos. A propóstio, Lois agradeceu pelo presente.

— Espero que a senhora Kent esteja aproveitando os lençóis de linho grego com o marido. — Super-Homem sorri e enrubesce em afirmação do comentário — Adeus, Kal. — quando o homem de aço parte, a Mulher-Maravilha ajeita a saia, senta-se na poltrona e começa a reler o discurso — Piedosa Atena, me mostre uma direção!

— Embaixadora? — interrompe Sílvia, com um CD nas mãos — Já mandei o arquivo para o e-mail que a senhora pediu. Deseja algo mais?

— Não, Sílvia, vou me aprontar para o discurso.

— O carro já está pronto, senhora.

Escola Dennis Peterson, Gateway City — banheiro feminino

— Você trocou o medalhão pelo quê? — berra Alice, fazendo com que Cassie borre o batom.

— Shhhhhhhhhhhhh! — pede Cassandra — Troquei, tá feito.

— Trocou com quem, meu Deus?

— Deus não. Deusa. — Cassie mostra os braceletes que usa — Afrodite queria o medalhão de volta. Eu ia dizer o quê?

— Cassie, eu sei. Eu só não entendo porque você quer um cavalo! Aonde você vai colocar esse bicho?

— Ele não é propriamente um... cavalo. E deixei ele por aí, mas ele vai estar aqui quando a gente sair.

— Eu ainda não entendo como você vai fazer o cara se apaixonar por você. Se Afrodite tivesse te dado o filho dela, pelo menos! — Alice ajeita a franja no espelho cuidadosamente — Aquele Eros é um gato! Ainda tenho aquela revista Seventeen que ele saiu! (*)

— Afrodite é legal. Ela conversou muito comigo, ela é a deusa do amor, caceta! Ela deve saber o que está fazendo! — Cassie suspira e senta na pia — Ela não ia me deixar na mão, Alice!

— OK, OK! Fritou, Cassie! Vamos pra aula! — Alice sai, puxando a jovem heroína pela porta do banheiro

— Eu não quero assistir à aula daquele estrangeiro gordo e careca que parece o Homer Simpson! — resmunga Cassandra.

— Ele não vai pegar leve só porque você é a Garota-Maravilha!

— Hunf. Saco! Ele sabe que eu sou a Garota-Maravilha?

— Toda a escola sabe, Cassandra. Sua amiguinha Cisne de Prata remodelou nosso conceito de aula!

Nova York — sede das Nações Unidas

A limusine de Themyscira pára em frente ao suntuoso prédio das Nações Unidas, conhecido como "o palácio de vidro". Diana percebe as bandeiras tremulando e o aglomerado de repórteres acompanhando o percurso de seu carro.

— Saco, repórteres! — pragueja Sílvia, com desdém — Eles fazem o meu trabalho ficar muito mais difícil!

— É o trabalho deles, Sílvia. Tenha paciência. — a Mulher-Maravilha abre a porta do carro e espanta-se com o aglomerado de pessoas em sua volta.

— Mulher-Maravilha, a senhorita acha que esses ataques vêm do Qurac? — grita o repórter de camisa azul clara e terno bege.

— Embaixadora, embaixadora! A Liga da Justiça vai comandar um ataque à Palestina? — pergunta outro, pertinentemente, impedindo-a de sair do transporte.

— Acalmem-se. — pede Diana, com delicadeza — Eu não tenho tempo para responder perguntas agora. — alguns repórteres começam a reclamar desse posicionamento contra a imprensa — Eu falei "agora". Terei o maior prazer de dar uma coletiva, mais tarde. Só lembro aos senhores, como os cavalheiros que são, que quem está aqui é a embaixadora de Themyscira, e não a Mulher-Maravilha. Diana, princesa de Themyscira, irá discursar aqui, hoje.

Sílvia ameaça dar um largo sorriso quando Diana sai do carro sem maiores problemas. O tailleur preto e os cabelos presos em coque em nada lembram a heroína de cabelos soltos e uniforme colante.

— Embaixadora, — pede ela — posso mandar o discurso para passar no teleprompter?

— Sim, Sílvia. Peço que acompanhe, não quero uma cópia dele nos jornais amanhã. O que será dito deverá ser apenas ouvido e não exaustivamente transcrito.

Diana entra no imenso salão e posiciona-se na mesa reservada para ela. Escuta breves palavras do embaixador italiano sobre medidas de segurança para a Europa. Ao seu lado está o embaixador da Latvéria. O homem sisuso apenas a observa e ela se pergunta se Destino usaria alguém ou um de seus andróides. Poucos minutos depois a princesa é chamada para discursar. Ela segura a pasta com a cópia revisada pelo Super-Homem e se encaminha à frente de todos. Silenciosamente, faz uma prece a Atena pedindo sabedoria.

— Bom dia! Muitas vezes me pergunto sobre o direito de discursar aqui. Minhas ações como membro ativo da Liga da Justiça podem me dar uma visão única do mundo e eu o vejo como um globo. — Sílvia acompanha o discurso preocupada. A pasta de Diana possui um recado simples em uma caligrafia bem trabalhada: "não somos deuses!". Diana reconhece a letra de Clark Kent e pausa — E é por isso que ouso afirmar que possuo um respaldo maior em determinar certos envolvimentos políticos e internacionais. Entretanto, senhores, não devo permitir que minha visão seja partilhada por todos igualmente, isso apenas a desejo. Nova York sofreu um atentado terrorista há poucos dias (**). Conforme os relatórios do FBI, os homens são de nacionalidade palestina.

Um enorme burburinho preenche toda a sala. Sílvia, ao lado do monitor, rói as unhas freneticamente. Ela sabe que Diana falará da eterna briga entre Palestina e Israel, que é de cunho religioso e que nenhum outro país devia ser prejudicado por isso.

— Entretanto, senhores, me preocupa o fato desses mesmos homens falarem um dialeto tão antigo. — Diana se cala, Sílvia olha assustada pro monitor — E por conta disso, não vou discursar em nome da paz.

— Ela está fugindo do discurso!!! — berra Sílvia para o monitor — Jesus Cristo, o que a princesa tem em mente?

— Tampouco não discursarei em nome da guerra. — Diana fala serenamente, como se estivesse com o texto gravado em sua memória e não falando de improviso — Nova York foi atacada porque os Estados Unidos tem se envolvido em assuntos religiosos, não devemos permitir que nossas crenças sejam desacreditadas e nem impostas por nenhum líder. Estou aqui apenas para afirmar fatos, e defender a idéia que a bandeira americana prega: liberdade! Solicito que o conselho de segurança vote a favor de uma equipe que coordene as ações dos Estados Unidos da América. Não podemos permitir que decisões sejam tomadas em questões baseadas na fé! — o burburinho aumenta ainda mais. Diana se retira do palanque e caminha para a saída — Tenham um bom dia.

— Diana! — berra Sílvia — A senhora não seguiu o discurso!

— Não, Sílvia, não segui. Vá para a embaixada, aguarde o telefonema de Helena Sandsmak, ela deve chegar a Nova York em poucos dias. Você sabe o que tem que passar para ela. Estarei me ausentando de minhas funções por alguns dias.

— O que eu vou dizer para a imprensa?

— Diga que a Mulher-Maravilha está em missão. — Diana abre a porta principal e é bombardeada com flashes e perguntas — Chame Phillipus, se achar necessário. — Diana alça vôo e em instantes ouve-se o primeiro "boom" da barreira do som sendo quebrada. Em pouco tempo ela atinge a velocidade de Mach 3.

— Pessoal, mais tarde! — Sílvia anda depressa para a limusine, praguejando em ter que lidar com tantos jornalistas.

Gotham City, subsolo da mansão Wayne.

— Belo discurso. — Batman recebe a convidada na caverna, vira-se com um leve sorriso entre os lábios — Estava bastante inspirada.

— Analisou o vídeo que mandei, Bruce? — Diana sorri gentilmente — Algumas verdades só são ouvidas quando são ditas abertamente.

— Concordo, mas quero lhe mostrar algo. — Bruce Wayne vira-se para o computador. Diana escora-se na braço da poltrona e ele sente a leve fragrância de jasmim — Atrás do primeiro-ministro palestino. Não só na fita que você me mandou, mas fiz uma busca com Oráculo. Desde julho esse homem aparece.

— Qual a função dele?

— Os informes oficiais dizem que é o redator dos discursos de Ahmed Qureia.

— Um redator que acompanha o primeiro-ministro em todas as solenidades? — questiona a princesa.

— A propóstio, atacar o governo dos Estados Unidos não foi a saída mais inteligente para essa questão.

— Protegendo seu amigo Fox, Bruce? — Diana o interrompe com um sorriso.

— Seu sorriso não me desarma, Diana. — Batman se levanta e aponta pra tela — A acusação contra o governo dos Estados Unidos é para despistar o que você quer fazer. Você não me mandou esse vídeo pra fazer uma análise e nem captar sons, você queria se salvaguardar para o que está pensando em fazer. — Diana o observa com seus penetrantes olhos azuis, ela não esboça nenhum gesto, apenas sorri, gentilmente — Deixe a Liga da Justiça ir com você à Palestina.

— Não, Bruce. Como disse em meu discurso, é questão de fé. Nem a Liga e nem o governo dos Estados Unidos devem interferir.

— Eu sei que esse homem atrás de Ahmed Qureia é Ares, Diana.

— Elementar, meu caro Bruce. É problema meu, como você sabe. — a princesa se vira e desaparece na escuridão da caverna. Batman permanece olhando a tela do computador em silêncio.


Continua.


:: Notas do Autor

(*) Os deuses gregos tiveram uma passagem por nosso mundo durante a saga O Retorno dos Deuses, em Mulher-Maravilha # 05 a # 07. voltar ao texto

(**) Em Mulher-Maravilha #22. voltar ao texto




 
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