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Liga da Justiça # 13

Por Fernando Lopes

Choques

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San Diego Convention Center — 10h55

A jovem tem dificuldade para abrir caminho entre a multidão de curiosos e jornalistas que se aglomera atrás do cordão de isolamento da polícia. Um dos guardas tenta detê-la quando, decidida, ela transpõe a barreira. A credencial do Departamento de Operações Extranormais, exibida pela moça, o faz mudar de idéia.

— Agente Chase, DOE. Quem está no comando?

— O capitão Garrett. Aquele, de terno grafite — responde o policial, apontando para um homem alto e magro, de cabelos castanhos e sobrancelhas grossas.

— Obrigado — replica a agente, andando na direção indicada. Garrett conversa com o líder da SWAT, aparentemente discutindo uma estratégia para invasão do centro.

— Capitão Garrett?

— Sim?

— Cameron Chase, DOE.

— Ah, sim. Estávamos esperando por vocês. Cadê o resto de sua equipe?

— Na verdade, estou sozinha. Pode me dar um apanhado da situação?

— Bem, — o capitão suspira antes de falar, desapontado — temos um número indeterminado de reféns, na maioria crianças e adolescentes, sob domínio de três fantasiados, aparentemente metas(*). Estavam assaltando uma companhia de alta tecnologia aqui perto, mas dispararam os alarmes. Tentamos cercá-los, mas eles destruíram duas viaturas e se enfiaram aí dentro.

— Pelo jeito, estava acontecendo algum evento...

— Convenção de quadrinhos. A maior concentração de fãs babões deste lado do planeta.

— Que maravilha. Já sabem quem são os caras?

— Pela descrição e o estrago, foram identificados como Chicote Negro, Derretedor e Nevasca.

— Nevasca? Mas ela não estava presa?

— Não, não é essa. É o Nevasca. Os três andaram dando trabalho para o Homem de Ferro há algum tempo.

— Saco... Como se não bastasse o mau gosto pra roupas, os palhaços também não tem muita criatividade pra nomes... Mas espere aí! O tal Derretedor não tinha morrido(**)?

— Deve ser um novo. Se o Nevasca original foi substituído(***), por que não o outro?

Chase coça os olhos e, mais uma vez, se pergunta por que saiu da cama.

— Algum plano?

— Bem, estamos negociando. Nos deram meia hora para arranjar um helicóptero, ou ameaçam matar os reféns. Estávamos enrolando para dar tempo de vocês chegarem. Mas pensamos que teríamos reforços mais... significativos. Sem querer ofender.

— Tudo bem.

— Posso mandar a SWAT invadir e tentar abater os caras com atiradores de elite, mas isso pode comprometer a segurança dos reféns.

— Talvez possamos ajudar.

Chase e Garrett olham para cima, na direção da voz. Descendo suavemente, o Caçador de Marte pousa ao lado dos dois. Seu aspecto peculiar, embora conhecido dos terráqueos há vários anos, é uma visão sempre surpreendente.

— Caçador — o policial estende a mão para o alienígena. — Sou o capitão Garrett. Esta é a agente Chase.

— Já nos conhecemos. Como vai, senhorita Chase?

— Bem, obrigado. Mas parece que estamos em desvantagem numérica...

— É impressão sua.

A voz, desta vez vinda de trás, é grave e segura.

— Creio que já conhecem Aquaman — diz o Caçador de Marte. — E aquele ao lado dele é...

— Homem-Borracha, ao seu dispor — Eel O'Brien estica o braço e o pescoço para beijar a mão da agente Chase, que se sobressalta com o gesto inesperado. — Para o que você quiser, aliás...

— Quieto, Borracha.

— Certo... — Chase desvencilha rapidamente a mão da de O'Brien, constrangida. — E o que pretendem fazer?

— Vamos nos separar e entrar. Mantenha seus homens posicionados, capitão — o Caçador tenta não tirar a polícia completamente da ação, mais por respeito do que por necessidade — para o caso de algum deles tentar escapar.

— Tudo bem.

Os três heróis partem, cada um em uma direção, sob o olhar dos policiais.

— Acha que eles conseguem?

— Bem, se não conseguirem — responde Chase — vão perder um bocado de leitores...

— Não acha que o helicóptero já devia ter chegado?

— Fica frio, garoto — ironiza Chicote Negro. — Não é porque está usando as botas do Derretedor que vai ficar de cabeça quente agora...

— Deixa de ser palhaço, Chicote! O moleque está certo. A coisa está quieta demais lá fora.

— Eles não iam ser loucos de entrar aqui. Não com esse bando de nerd como refém. Fica quieto aí, ô careca!

— S-sim, senhor... — responde um homem de cerca de 40 anos, com um pirulito na boca. — Aimeudeusaimeudeus....

O chicote energético destrói o pirulito, enquanto o homem, em choque, desmaia ao som das gargalhadas do criminoso.

— Por que não tenta isso comigo? — grita Aquaman, disparando o arpão ciberneticamente controlado que ocupa o lugar de sua mão esquerda. O cabo enrosca-se no braço de Chicote Negro, impedindo-o de usar sua arma.

— O quê? Me larga, seu puto! — Surpreso pelo ataque, o criminoso tenta se soltar, inutilmente. — Derretedor, frita esse cara!

— É pra... Que diabo é isso?

— Acho melhor reconsiderar enquanto pode — avisa o Caçador de Marte, atravessando a parede do prédio em sua forma intangível.

— Rá! Eu te conheço, marciano — apesar da inexperiência, o novo Derretedor não se intimida com seu poderoso oponente. — Sei qual é seu ponto fraco! Você escolheu o cara errado para brigar!

A rajada de calor atravessa o corpo imaterial do Caçador de Marte, que grita em agonia e volta a materializar-se. Ao mesmo tempo, Chicote Negro troca sua arma de mão e atinge o punho de Aquaman. O choque é transmitido por todo o corpo, ainda molhado, do herói anfíbio, que cai, atordoado. Os dois justiceiros tornam-se, então, presas fáceis de seus adversários. Uma fração de segundo antes do chicote energético e de outra rajada térmica atingirem seus alvos, porém, um braço longo e maleável, no formato de uma pá, resgata os justiceiros.

— Cara, isso não é jeito de tratar o cabeça-de-bagre, e muito menos meu marciano favorito — diz Eel O'Brien, transformando sua mão esquerda numa marreta e derrubando Derretedor e Chicote Negro num único golpe. — Pelo menos enquanto o fabuloso, único e incomparável Homem-Borracha estiver...

A frase é interrompida por uma rajada de gelo, que congela o braço de O'Brien.

— O que será que está acontecendo lá dentro?

— Calma, capitão. Eles entraram há apenas dez minutos.

— Eu sei — diz Garrett, tomando um gole de café. — É que brigas de metas são sempre um saco na hora de preencher relatórios. Tente ler um. Parece uma história de ficção mal escrita. E os estragos, na maioria das vezes, acabam sendo maiores do que os prejuízos que teríamos se deixássemos os "bandidos" escapar.

Antes que a agente Chase possa dizer qualquer coisa, uma brilhante luz verde passa sobre eles em alta velocidade, seguindo para o centro de convenções.

— O que foi isso?

— Posso estar enganada — responde a agente — mas acho que seu relatório acaba de se complicar mais um pouco...

Não é o peso do bloco de gelo que lhe prende o braço que paralisa os movimentos do Homem-Borracha. É uma súbita sensação de sufocamento, que sobe do peito e tranca sua garganta, impedindo-o de respirar. O mundo começa a girar enquanto Eel O'Brien tenta, sem sucesso, gritar. Ele cai de joelhos, surpreendendo não só Nevasca, Derretedor e Chicote Negro, que acabavam de se levantar, mas também Aquaman e o Caçador de Marte, ainda não recuperados do ataque de seus inimigos.

— Quando acabar com vocês — diz Donny Gill, sorrindo por baixo da máscara — o preço dos meus serviços vai aumentar um bocado.

A rajada congelante deixa as mãos de Nevasca, mas sua trajetória é interrompida por um lança-chamas verde.

— Acho que você vai ter de arranjar outra coisa para colocar no currículo, sorvete.

— Lanterna Verde!

— Sem autógrafos, por favor.

— Autografa isso, palhaço! — grita o Derretedor, disparando um raio de calor.

— Cara, não sei o que é pior, — ironiza Kyle Rayner, aparando o disparo com uma geladeira de energia verde — adotar a identidade de um fracassado ou essa fantasia ridícula. Parece até que roubou as calças do Trapaceiro!

— Calaboca, CALABOCA! Eu vou acabar com a tua raça!

O Derretedor volta a disparar, agora com a ajuda de Nevasca.

— Cansei de vocês — esquivando-se dos raios, o Lanterna usa seu anel energético para encerrar a luta, prendendo os dois criminosos numa geladeira e numa caçarola de pipocas, respectivamente.

"Eu é que não vou ficar aqui dando mole", pensa Chicote Negro, longe do combate desde a chegada do Lanterna Verde. "Se tirar o uniforme e me juntar aos reféns, ainda posso escapar".

Quando começa a correr, entretanto, o criminoso vê suas pernas serem envolvidas por um cabo dourado. Surpreso e desequilibrado, ele despenca com a cara no chão, perdendo os sentidos.

— Estamos quites — resmunga Aquaman.

Livres, os reféns se dão conta de que acabaram de ser salvos pela Liga da Justiça. Após um breve momento de hesitação, eles cercam os heróis em busca de fotos e autógrafos.

Minutos depois, com a ajuda de uma leve sugestão mental implantada telepaticamente pelo Caçador de Marte, os cativos começam a sair do centro de convenções, seguidos pelos membros da Liga. Sem seus uniformes e armas, Derretedor, Chicote Negro e Nevasca saem apenas de cuecas, presos por algemas de energia verde.

— O que faz aqui, Lanterna?

— Tinha uns assuntos a resolver aqui perto, J'onn... — "Na verdade, vim apresentar meu portfólio para ver se descolava um fixo com quadrinhos, mas isso não vem ao caso", pensa Kyle. — Ouvi sobre a confusão no rádio e vim ver se podia ajudar. E aí, ainda tem uma vaguinha pra mim ou o grupo tá completo?

— Oficialmente, você está apenas licenciado. Portanto, pode voltar, se quiser. A propósito, conseguiu o emprego?

— Na verdade, eu ainda não tinha apresentado... Ei! Você trapaceou!

O Caçador de Marte sorri por um instante, mas volta a assumir um semblante preocupado ao olhar para o Homem-Borracha.

— O que há com o chiclete? Parece que mascaram ele e cuspiram.

— Algo que o está corroendo por dentro. Algo que pode privar o mundo de um grande herói.

Eel O'Brien olha os companheiros à distância. Ele pode não ser o Super-Homem, mas não precisa de superaudição para saber o que seus colegas de equipe dizem. Em seu coração pesado, uma decisão dolorosa amadurece.

Gotham City — 13h53

A vibração do comunicador da Liga da Justiça é um incômodo que Batman se força a suportar, por motivos que apenas ele compreende. Em sua identidade civil, ele é obrigado a interromper uma reunião de diretoria da Fundação Wayne para atender ao insistente chamado do aparelho, similar a um celular comum, mas capaz de transmitir imagens em tempo real e com sinal codificado, praticamente impossível de rastrear. Uma tecnologia capaz de revolucionar o mundo das telecomunicações e gerar uma fortuna. Algo que poderia interessar Bruce Wayne, se ele já não fosse um dos homens mais ricos do planeta. Contrariado, ele atende ao chamado mantendo a câmera do equipamento desligada. A imagem que aparece no visor é a de Helena Bertinelli, a Caçadora.

— O que quer?

— Simpático, como sempre. Acordei você? Afinal, pelo que sei, morcegos dormem de dia...

— Suponho que haja um motivo sério para você me ligar.

— Estou de volta a Gotham. Vou retomar minha vida.

— Imaginei que fosse fazer isso.

— Falei com J'onn. Queria agradecer por ajeitar as coisas para mim(****). Facilitou bastante.

— Era o mínimo que poderia fazer, depois de tudo.

— Não posso dizer que não fiquei surpresa...

— Você se feriu a serviço da Liga da Justiça. Nada mais justo que a Liga a compense por isso.

— O que me leva ao outro motivo da minha ligação. Vou deixar a equipe.

O silêncio do outro lado da linha é a única resposta que Helena obtém.

— Você ainda está aí?

— Sim. Tem certeza de que é o que quer fazer?

— Pensei muito nisso. Vocês jogam pesado demais. Não tenho cacife para bancar. Além do mais, com o Arqueiro de volta, me tornei ainda mais supérflua. Vocês não precisam de dois malucos disparando flechas.

— Discordo, mas respeito sua decisão. — Há um breve momento de hesitação antes da frase seguinte. — Pretende voltar a agir nas ruas?

Desta vez é Helena quem fica em silêncio por alguns segundos.

— Ainda tenho trabalho a fazer.

— Entendo. Sabe o que penso a respeito. Espero que o tempo na Liga lhe tenha sido útil.

— Vou tentar me lembrar disso.

— Cuidado, Caçadora. Seu ódio ainda vai levá-la a um caminho sem volta.

— Tentarei me lembrar disso também. Nos vemos nas ruas.

A imagem desaparece e o comunicador silencia, deixando Bruce Wayne sozinho com seus pensamentos.

Torre de Vigilância da LJA — 21h57

"Droga", pensa Fóton, amaldiçoando a si mesma por não ter decorado a planta da Torre. "Eu sei que a oficina do Aço é neste nível, mas onde... Ah, é ali".

— Professor Palmer, o senhor está... — Mônica Rambeau se surpreende ao ver que Ray Palmer, o Eléktron, não está só. Ao seu lado, um homem negro alto, totalmente careca, usando cavanhaque e óculos de aro redondo olha para ela com curiosidade. — Desculpe, pensei que estivesse sozinho. O Super-Homem pediu que o chamasse. Parece que o comunicador está com algum problema. A reunião já vai começar.

— Obrigada, Fóton. Conhece o doutor Irons?

— Creio que não. Como vai?

— Sou John Henry Irons — diz o estranho. — Muito prazer, senhorita Rambeau.

— Como... Como sabe meu nome?

— Sei praticamente tudo sobre quase todos neste prédio. Afinal, eu o projetei.

— Então você é...

— Aço. Sim, sou eu mesmo. Embora esteja temporariamente afastado(*****), venho aqui periodicamente checar os sistemas de segurança.

— E jogar um pouco de conversa fora — emenda Eléktron.

— Principalmente. Mas você parece surpresa.

— Eu? Bem, na verdade, fiquei um pouco, mesmo. Imaginava que você fosse um pouco mais...

— Branco?

— Eu ia dizer velho. Mas não vou negar que também não esperava que fosse afro-americano. O que, por sinal, me alegra muito.

— Mesmo? — Irons levanta a sobrancelha, num olhar irônico. Eléktron disfarça uma risada.

— Quero dizer, achei que fosse a única afro-descendente do grupo — emenda Mônica, percebendo o quanto sua frase soara estranha. — Não quis dizer que...

— Não se preocupe, senhorita Rambeau. Entendi o que quis dizer.

— Ótimo — Fóton apressa-se em mudar de assunto. — Vamos, professor Palmer?

— Claro. Vem conosco, John?

— Não, vou ficar aqui e repassar os sistemas.

— Está bem. Conversamos depois.

— Certo. Até logo, senhorita Rambeau.

— Adeus, doutor Irons.

Fóton deixa rapidamente a sala, seguida por Ray Palmer, que dá uma piscadela marota para John Henry Irons. "De repente, começo a achar que voltar à ativa pode não ser uma má idéia...", raciocina Aço.

Sala de Reuniões

— Quer dizer então que resolveu voltar, Lanterna?

— Pois é, Ligeirinho. Estou pensando nisso há um bom tempo, mas parece que tudo conspirou contra mim... Mas vem cá, essa reunião não é só por minha causa, né?

— Não sei, o Super tá com uma cara meio esquisita. E não é só ele, o Borracha também parece ter saído de um velório. Até a Caçadora apareceu. Aliás, abrindo um parênteses... Que delícia, meu Deus!

— Nem me fala. Mas pelo que me disseram não é muito... saudável tirar uma onda com a cara dela. Soube que ela meteu uma flecha entre os olhos de um cara no hospital, é isso?(******)

— É, um assassino contratado. A mulher é uma fera. Se bem que eu não ia ficar chateado se ela me arranhasse...

Alheia aos comentários... elogiosos dos colegas, a Caçadora se dirige ao Doutor Estranho.

— J'onn me contou o que o senhor fez por mim. Gostaria de agradecer, Doutor.

— Não é preciso. E por favor, me chame de Stephen.

— Certo. Embora eu ache que dificilmente nos veremos tão cedo.

— Por quê?

— Estou deixando o grupo. Vim apenas para comunicar oficialmente.

— É uma pena. Tem certeza de que é uma decisão correta?

— Engraçado, você não é o primeiro a me perguntar isso hoje...

— Talvez porque realmente não seja o melhor a fazer.

— Pode ser, mas eu preciso de um tempo. Sempre me senti uma... intrusa aqui. Quer dizer, olhe para vocês! Aqui só tem peso-pesado! Não, meu jogo é outro...

— Se eu acreditasse nisso, nunca teria entrado nessa. Desculpe, ainda não fomos formalmente apresentados. Sou o Arqueiro Verde, mas os amigos me chamam de Ollie.

— Caçadora.

— Hmmm, misteriosa, hein? Gosto disso. Mas me diga, acredita mesmo nessa baboseira toda?

— Não deveria?

— Moça, deixa eu te dizer uma coisa: estou nesse jogo há muito tempo. O suficiente para saber que, no fim, o que conta realmente é o que vai aqui, no peito. O resto é efeito especial.

Com a chegada de Fóton e Eléktron, o Super-Homem toma a palavra. Todos os lugares são ocupados, menos o de Batman, tradicionalmente vazio.

— Senhoras e senhores, convoquei esta reunião para discutir um assunto... delicado. Antes, porém, gostaria de anunciar oficialmente a volta do Lanterna Verde ao grupo. É bom tê-lo de volta.

— Obrigado, Super. É bom saber que ainda tem um lugarzinho pra mim. Se bem que essa mesa já tá ficando meio apertada...

Sorrisos aparecem no rosto de todos os justiceiros, embora nem todos estejam realmente tranqüilos. "A pergunta é: com o Lanterna de volta, será que ainda tem lugar para mim?", pergunta Fóton a si mesma. "Afinal, entrei para a Liga ocupando a vaga dele."

— Infelizmente, também tenho notícias tristes — retoma o Super-Homem. — A Caçadora me disse agora há pouco que pretende deixar o grupo. Tem mesmo certeza disso, Caçadora?

— Tenho — responde a vigilante, ciente dos olhares de todos os presentes. — Foi uma experiência e tanto, e só tenho a agradecer a todos. Mas meu lugar não é aqui.

— Você sempre terá um lugar na Liga da Justiça, Caçadora — retruca o Super-Homem. — Tenho certeza de que falo em nome de todos aqui.

— Obrigado. A todos vocês. Se não se importam, eu já vou. Não gosto de despedidas. Nos vemos por aí.

Dizendo isso, Helena Bertinelli se levanta e sai da Sala de Reuniões, deixando para trás um lugar que qualquer herói da Terra daria a vida para ocupar, mas onde poucos tiveram a honra de estar. Se ela tomou a decisão correta, só o tempo dirá.

— Bom, — diz o Homem-Borracha, antes que o Homem de Aço retome a palavra. — Acho que vou aproveitar a deixa e pegar o meu boné também.

— O quê?

A decisão surpreende a todos os membros da Liga, exceto o Caçador de Marte, já ciente dos motivos de Eel O'Brien.

— Você só pode estar brincando...

— Não, Super, tô falando sério. Venho pensando nisso desde que Nevasca me prendeu naquele bloco de gelo (*******). Desde aquela época tem alguma coisa acontecendo na minha cabeça. E se eu não cuidar disso, vou acabar deixando alguém morrer.

— Talvez eu possa...

— Só se você também for psiquiatra, além de mágico, Doutor. Não, acho que eu tô precisando de um profissional. Conhece alguém bom, que cobre um precinho camarada e não se importe em atender um sujeito tão maravilhosamente sensacional como eu?

— Procure Leo Samson. Ele é especialista em meta-humanos, já que também é um.

— Eu preferia uma louraça sarada em vez de um marombeiro de cabelo verde, mas acho que vai ser o jeito. Aliás, deixa eu tirar meu time logo. Quem sabe eu ainda pego uma carona com a Caçadora. Um teleportador apertadinho, sacumé...

As piadas mascaram a tristeza de Eel O'Brien ao deixar rapidamente a sala, sem dar tempo aos demais para se manifestarem. Alguns fazem menção de segui-lo, mas são impedidos pelo Caçador de Marte.

— Deixem ele ir. Ele está passando por um momento difícil, e precisa encontrar o próprio caminho.

— Por mais que eu lamente — completa o Super-Homem — J'onn está certo. Tentarei falar com ele mais tarde.

O clima leve do início da reunião desaparecera. Todos agora sentem uma desagradável sensação de desconforto, que tende a piorar.

— Confesso que não esperava que as coisas tomassem esse rumo, mas infelizmente tenho de tratar do assunto que me levou a convocar esta reunião: sua conduta, Eléktron.

— O quê?

A maioria dos justiceiros se surpreende com as palavras do Homem de Aço, menos o próprio Ray Palmer, que se levanta para falar.

— Fiz o que julguei correto, Super-Homem. Mas sabia que isso traria conseqüências. Estou disposto a aceitar o que o grupo decidir.

— Alguém pode explicar o que diabos está acontecendo? — Esbraveja Oliver Queen. — Do que é que vocês tão falando?

— Contrariando a determinação expressa do Conselho de Segurança da ONU e do governo russo — relata o Super-Homem, visivelmente incomodado com a situação — Eléktron entrou secretamente na Rússia, juntamente com Nuclear, e foi até Ninji-Novgorod (********).

— Então foi assim que o lugar foi descontaminado tão depressa?

— Exatamente, Flash. O governo russo e a ONU abafaram o caso, pois eles não são loucos de tentar condenar a Liga por resolver um problema tão grave.

— Então, qual é exatamente o problema?

— O problema, Arqueiro, é a intervenção de um membro da Liga num assunto de Estado, contra a vontade expressa de seu governo.

— Tudo isso é bobagem.

Os heróis, que acompanhavam em pesado silêncio a discussão, viram-se para um canto escuro da sala. Contrariado, o Super-Homem assume um tom que mistura ressentimento e ironia.

— Estava esperando para ver a que horas você faria seu showzinho particular. Confesso que isso já está me enchendo.

Batman cruza a sala e assume seu lugar na mesa, no lado oposto ao do Homem de Aço, sem sentar-se. Os dois olham fixamente um para o outro.

— Lamento que se sinta assim. De qualquer modo, esta discussão é absolutamente sem sentido.

— Talvez para você, que age como se não tivesse de dar satisfações a ninguém — responde o Super-Homem, amargo. — Mas nós não podemos simplesmente passar por cima das decisões da ONU, ou ignorar decisões de um governo legítimo.

— Um governo legítimo, que levaria décadas para fazer o que Palmer e Nuclear fizeram em minutos. E que está querendo fazer política em cima da LJA. Não seja ridículo...

— Não sou eu que fico bancando o adolescente rebelde sem causa. O caso é que a ONU quer ter certeza de que não terá de ficar negociando saídas políticas para a Liga. Fury quer garantias de que isso não vai se repetir.

— E desde quando Fury decide o que a Liga deve ou não fazer?

— Não seja infantil! — O Homem de Aço se exalta e esmurra a mesa, provocando uma rachadura e surpreendendo os demais. — Você acha que podemos simplesmente passar por cima de todo mundo?

— Se for preciso...

— Você vai acabar se metendo — e a nós também — em encrenca com essa sua atitude inconseqüente.

— Eu faço o que tem de ser feito.

— Pois enquanto eu for o líder deste grupo — diz o Super-Homem, incisivo — nós vamos tentar fazer isso com as autoridades. Ninguém nos nomeou deuses.

O silêncio na sala é completo. A tensão é tão grande que poderia ser cortada com uma faca.

— Faça o que quiser — diz Batman finalmente, deixando a sala. — Você é o "líder". Tenho assuntos mais importantes a tratar. Sabe onde me encontrar quando precisar.

O clima pesado imobiliza os justiceiros. O Capitão Marvel e Aquaman pensam em seguir atrás do Homem-Morcego, mas mudam de idéia diante do olhar severo do Super-Homem. O Arqueiro Verde, entretanto, não se deixa intimidar e segue Bruce, alcançando-o no corredor, a caminho do teleportador.

— O que foi aquilo lá dentro?

— Pode chamar de... diferenças ideológicas.

— E agora, como é que fica? Está caindo fora também?

— Não. Lembra do que eu lhe disse quando pedi que voltasse?

— Antes ou depois da porrada?

— Esta é a formação mais poderosa da Liga da Justiça, Oliver — prossegue Batman, ignorando a piada. — Mas ela carece de humanidade. Kal pensa que conhece os humanos, mas não se convence das baixezas que somos capazes de realizar. Ele não entende que, às vezes, é preciso jogar fora das regras para se obter justiça. E é aí que eu entro.

Enquanto isso, na Sala de Reuniões, o Super-Homem retoma a palavra.

— Voltando ao assunto desta reunião — diz, ainda tenso — gostaria de explicar que, pessoalmente, acho que Ray tomou a decisão correta. Entretanto, não podemos tomar o comando do mundo em nossas mãos, passando por cima dos que foram legitimamente escolhidos para dirigir os destinos da Humanidade. Estamos aqui para ajudá-los, não para controlá-los ou decidirmos por eles. No futuro, as decisões deverão ser tomadas em conjunto. Quem não estiver de acordo... Bem, terá de repensar se deve ou não continuar no grupo.

"Começo a me perguntar se isso ainda é mesmo um grupo", pensa o Lanterna Verde. "E se eu não poderia ter escolhido uma hora pior para decidir voltar".

:: Notas do Autor

* Abreviação de meta-humanos, usada normalmente em tom pejorativo pelos policiais.
** Bruno Horgan, o Derretedor original, foi assassinado pelo Carrasco do Submundo.
*** O primeiro Nevasca, doutor Gregor Shapanka, foi morto por Arno Stark, o Homem de Ferro de 2020 (que, para efeito da cronologia do Hyperfan, vem de uma linha temporal alternativa do futuro). O atual ocupante do traje de Nevasca é Donny Gill.
**** Batman pediu ao Caçador de Marte para se passar por Helena para obter uma licença na escola onde ela leciona, enquanto a vigilante se recuperava dos ferimentos sofridos na batalha contra os N'Garai, como visto em LJA # 04.
***** Aço licenciou-se do grupo quando sua armadura foi destruída pelos N'Garai, em LJA # 03.
****** Como visto em LJA # 11.
******* LJA # 07.
******** Edição anterior.



 
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